Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Miss Europa

Quando pensamos seriamente num concurso de beleza, começamos por refletir (menos seriamente) na beleza das mulheres (menos na dos homens ou de outros seres que tenham a sua beleza avaliada em concurso – cães, cavalos, periquitos, touros e outros animais domésticos, mas tomemos os concurso de beleza feminina como paradigma, assumindo que todos os concursos de beleza são comparáveis). Algum tempo depois (que dispensámos a imaginar a fruição, a oportunidade, a improbabilidade, os custos se o desejo por uma das concorrentes se consumasse), a palavra «corpo», que era, sobretudo, esse objeto de desejo politicamente incorreto, de certa forma, transparenta-se e podemos olhá-lo fisiologicamente, isto é, abandonar a sua anatomia e focar o corpo a funcionar (as pernas a caminharem, o cérebro a escrever um livro, os braços a agarrarem um filho, o coração a alimentar toda esta atividade). É, então, inevitável retornar à avaliação da beleza com a seguinte pergunta: «Porque prezo esta mulher bela?» ou com outra mais geral: «O que é que este ser belo faz melhor que aquele outro castigado pela fealdade embora da mesma espécie?» ou ainda outra que talvez tenha já uma diferente natureza: «Prezamos a beleza porque funciona melhor que a fealdade, i.e., não apenas uma mulher bela faz mais e melhor do que um mulher feia, mas a beleza é um valor que se autojustifica?». Há tratores feios, há cavalos feios, há porta-aviões feios, há cães horríveis e há mulheres feias que são amigáveis, benevolentes, fiáveis, até reprodutoras em grau igual ou superior ao de mulheres bonitas, tal como a beleza dos tratores, dos cavalos, dos porta-aviões e dos cães não se prende nem com a sua força nem com a sua rapidez nem com o seu potencial bélico nem com a sua simpatia. Porque desejo mais uns que outros? Neste momento (de indecisão) poderá aparecer-nos um qualquer oportunista e gritar-nos: «É um critério, idiota! Precisas sempre de um critério de escolha até os intelectuais apologéticos do indefensável precisam de um critério!». É uma ocasião difícil para nós que estamos vulneráveis e recetivos a qualquer explicação e estas são, em geral, mais abrangentes do que gostamos. Estas justificam a sua versão de «beleza» pela fé e pela força – não é o que queremos. Preferimos uma mulher feia ou, na dúvida, acabar com os concursos de beleza e, já agora, com os concursos de inteligência, de destreza em esgrima e com todos os outros concursos que selecionam os seres em função de caraterísticas mal definidas.