Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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o que é existir

Confirmo o que vem em todos os tratados de psiquiatria: os meus sintomas negativos têm piorado com o tempo desde o primeiro episódio de ruptura com a realidade. Não deliro porque já nada ganho com isso; em troca de uma velada aquiescência recuperei a irrealidade das minhas convicções. Quanto ao resto: 1) os meus afetos tornaram-se baços e inexplícitos; não deixam entender um pânico mudo e total. Nem a mim o que me atemoriza se revela, como se a linha das significações embatesse em cada palavra que preciso para pensar e a rebentasse. 2) «Anedonia» dizem do meu aborrecimento, mas como dar valor à avalanche de nova quinquilharia que se intrude, a minha atenção pulveriza-se, nada foca, nada experimenta, dor deslumbrante de uma sobrestimulação avassaladora. Dizem que tenho uma mímica de ET estremunhado, mas é o aborrecimento descomunal de uma lucidez que grita nas células do fundo da mente. As coisas não me entretêm, as pessoas ainda menos: relatam os epifenómenos da sua impotência. Já não fazem planos para o mundo nem acreditam que haja lugar para um salvador nem sequer para um novo conceito de circo. Reconhecem a necessidade do espetáculo, mas a coesão do discurso coletivo desentranhou-se da alma. Tédio de um autómato sem pilhas; o filme da epopeia interrompido quando os deuses desciam e toda a humanidade se preparava para aplaudir. Este cataclismo não é o meu fracasso, é a representação cósmica que se fissura e só eu a conheço, e só eu habito a sua cosmologia caótica, e só eu sigo a sua monstruosa contagiosidade, cada filamento do meu corpo repuxado para a fragmentação. 3) Claro que bloqueia, por vezes, o meu pensamento. A meio da montanha, a perplexidade, o estonteamento, a ameaça da luz morde, fagulha, pica. Ou ao descer a rua para o trabalho, não posso continuar o caminho: todo o absurdo do mundo me caiu em cima. O pensamento não segue as suas regras porque o mundo perdeu o nexo e a lógica é o poço do esgoto. Tudo se desengrena como se o cão do cego se endemoninhasse. Sei que parece bizarro o que digo porque este texto fala de uma mente que só os loucos compreenderão (mas poucos). 4) A loucura é ignorar a loucura. Ignorar os principais terrores sociais, é afrontar o abismo como quem arrota uma refeição fast food (toda a rapidez é barata, o luxo prolonga os instantes, a impotência alimenta-se de diamantes explosivos sem nenhuma solução inscrita; a persistência resolve – longas horas acordado como se a espera criasse uma esperança). A loucura afasta-nos da malvadez; por vezes tornamo-nos demasiado virtuosos, a dignidade impede-nos de vergar, impede uma doçura demorada e translata pois há uma clarividência febril dentro dos olhos. Sim, a loucura desrespeita a generosidade. Precisaria de me estimar, precisaria que uma grande mãe me batesse à porta e, no lugar das críticas e diagnósticos que não mudam nada, reconhecesse que o mundo é demasiado grande para o que ela me ensinou. Mas a Vénus que me tira o sono apenas aparece para continuar a lengalenga de razões para me recusar. 5) Não me reconheço na minha imagem. Sou o estranho que primeiro me aparece, o único que aparece e nunca chego a conhecer, assim o penso e me penso sem modo de pensar o outro, de me espelhar no outro, que, de fugaz, nada diz. Também não compreenderia o seu riso, nem o choro, nem o humor, nem os esgares que ora são indiferença, ora ódio, ora troça, ora censura – não os decifro, nem tampouco a felicidade que dizem ser normal. Eu tento ser como os outros, mas não sei como são os outros, nem sei mais que, tudo destruído, até a ignorância é insustentável. E tudo isto é uma cicatriz rompida, o corpo concreto aberto e disseminado sou eu, mas o «eu» não se aplica a mim.