Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

lembrando H. D. Thoreau

Uma grande parte da humanidade está em vias de extinção no sentido em que só sobrevive em cativeiro. Deixou o seu ambiente natural, as suas cavernas, a vida nómada e cinegética e, insidiosamente, optou por redefinir o seu meio. A agricultura foi o primeiro passo, depois o desenvolvimento do gregarismo conduziu a espécie à especialização e à produção de bens trocados por géneros cada vez menos essenciais até ao limite atual quando já não sabemos o que é essencial e tudo nos parece essencial. O que aconteceu é que criámos condições ótimas de sobrevivência como as que proporcionamos ao casal de tigres da Sibéria e à família de leões, todos nascidos no zoo de Lisboa que é o local do cativeiro. Eu também estou tecnicamente extinto, vivo em Lisboa em cativeiro com outros lisboetas. Toda a humanidade conhecida vive em cativeiro; abandonou a natureza ou esta tornou-se o seu cativeiro: em parques, zoos, reservas protegidas existem algumas espécies selvagens, mas o clima modifica-se, as chuvas são ácidas e estão também em vias de extinção. Portanto não adianta tentar um regresso à natureza num mosteiro no Tibete, pois nesse recolhimento ainda nos afastamos mais da natureza do que na rua onde estou cativo. Dependo do estado como o tigre e não compreendemos porque aceitar essa dependência. Não compreendemos o que é o estado pois não o criámos nem assistimos a nada e as explicações que nos deram quando votámos não nos persuadiram. Viver em cativeiro dentro do cativeiro é uma forma extrema de liberdade, como Thoreau fazia.