Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o avião abatido

«Fui eu que pressionei o botão vermelho. Pude fazê-lo. Todas as pessoas têm esta vertigem do inferno, de um nivelamento pela destruição. Haverá outra forma de revolução que não pelo aniquilamento? Uns passeiam de férias em ilhas luxuriantes enquanto eu estou numa guerra em que não sei o que defendo. Alinho-me contra os que passeiam. Perante a morte não há neutralidade, mas os que passeiam, ainda que não acreditem numa felicidade explícita e estabilizada, imaginam-na, pagaram-na e estão a tentá-la. Poderão ignorar-nos? Poderemos tolerar que nos ignorem enquanto morremos, ou rebentamos num míssil, ou de uma bala que eles venderam? Nada me resta nem tenho qualquer esperança. Como qualquer herói a minha vida não conta. É assim a guerra, pode-se matar, pôr de lado as interdições e as morais que nos impingiram, tudo o que outrora nos foi caro, por uma causa coletiva, um sonho coletivo, uma bandeira, um símbolo, uma pátria. Enquanto houver mísseis há guerra, há um ódio que não se interrompe, há uma inércia que não se detém. O que são tréguas ou o que é um avião lá no alto carregado de turistas senão virtuais atos de guerra – não há neutralidade: quem vai de férias despreza a guerra e os que morrem. Saem as brancas, ganham as brancas, os peões morreram cedo sem se terem apercebido do que disputavam. Os turistas do avião não pertenciam ao jogo, mas o jogo não deixa ninguém de fora. A guerra não implica consciência da guerra, assim como não implica nem bons nem maus motivos, a história refaz-se a contento de quem a escreve. A morte dos neutros em férias a caminho de um paraíso alugado não é diferente da morte dos soldados aqui em baixo. Ninguém sabe quem nos alveja nem conhece os seus motivos. Não percebo porque só abati um avião se a bateria dispõe de três mísseis.»