Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

esboço para a refundação da pedagogia

As crianças vivem o tempo sem impaciência. São ocupadas por uma matéria que se transforma, que comparamos a muitas outras coisas que também dizemos belas e esperançosas. Um jardim compreendemo-lo melhor, ainda que o seu bando de pavões, as rolas e os melros, gerem um imprevisto mais rápido do que o florescer de uma orquídea, talvez comparável ao efeito da tempestade sobre as árvores do bosque. Nas crianças há um programa de aquisições não sequencial como um poema tem quem o escreva, quem o leia e quem o ignore, mas nunca pode desconsiderar um universo de temas tradicionalmente poéticos. O programa é o tempo das coisas se fazerem à margem da sua liberdade; uma ideia decomposta nos passos ilembrados ao assistirmos à sinfónica abertura dos aspetos no jardim. Por toda a parte uma ideia primordial e a sua oposta sediada no interior da flor. Dizemos toda a informação proceder da semente, mas não compreendemos a escala, onde cada momento adquire dimensão. Depois, as intenções seguem uma consciência fragmentada, uma consciência de imagens demasiado visuais, ela demasiado presa às formas possíveis. Isto é o que uma criança faz do tempo: usá-lo à margem de si porque o mundo é um brinquedo novo difícil de quebrar, difícil de morder, portanto inconclusivo se pretender conhecer a sua essência. Só quando crescemos, aprendemos a suprir o que ignoramos da essência das coisas. Encadeamo-las, elas fluem rápidas e, se fluírem sem turbilharem, dormimos em paz – é ao que chamamos «harmonia» e é o que apreciamos na falsa inocência de uma criança: é inocente toda a sua maldade, as ações sobre as causas das coisas, ainda que as quebrem, que as derrubem, ainda que arranhem a cara doutra criança, ainda que as suas negativas sejam absurdas. Tudo o que é absurdo numa criança espelha como em nós a razão falha, como a linguagem nos amarra a uma ordem sintática que se diz homóloga das coisas, mas não o é. Sabemos como enlouquecem os loucos e não ousamos desmenti-la, mas uma criança que recusa falar, que prolonga o palrar limita-se a usar a sua arbitrariedade. As suas aquisições alargam-se de uma forma desprogramada que nos surpreende e criam uma espécie de confiança de que a desordem das coisas não seja como a nossa loucura, mas uma mera aquisição de novas formas à margem do tempo porque a vida não é um processo, mas uma concatenação de coisas que têm de ser feitas de muitas formas possíveis, em momentos e circunstâncias as mais diversas. Por isso, só amamos verdadeiramente uma criança quando a observamos em silêncio sem nada lhe ensinar. Esperamos que ela nos olhe com um ar interrogativo quando aponta uma flor e dizemos: «É como tu, podia não ter nascido e seria uma haste seca; assim é magnífica». Portanto, percebendo bem o que é a uma criança, deixamos que os seus momentos críticos se resolvam, pois confiamos – não especialmente nela; talvez em mecanismos que tenhamos ainda em nós e que nos fizeram chegar onde estamos com a criança ao colo e se um cão ladra, dizemos «cão», mas ela, também sem nós aprende a língua.