Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

no sonho a humanidade aproxima-se ou afasta-se da sua natureza?

Os animais sonham? Provavelmente. Os homens sonham do mesmo modo? Provavelmente, mas o que adiantam estas curiosidades da inconsciência? Estaremos a usar «sonho» na mesma acepção latina de «somnium» embora ignorando quais foram os primeiros homens que sonharam preocupados com a descontinuidade com a realidade acordada. Só considerando, portanto, as coisas vistas com os olhos fechados, movendo-se, e o espírito adormecido acreditando no que acontece como sendo e não sendo consigo, dizemos tratar-se de um sonho. Poderemos, assim falar dos sonhos dos dinossauros que foram animais míticos, sem racionalidade, toda a sua mente reduzida ao inconsciente e a um desejar atuante sobre a plena exuberância muscular. São assim os nossos psicopatas, com a sua inteligência facultativa disposta a tudo. Mas estes não sonham nem desenvolvem teorias do sonho. Ocupam o tempo do sonho ouvindo o próprio nome ecoar, repetido em todos os vales da montanha como uma aura de aprovação geral para o que pensem. Nós, se aparecemos num sonho, somos tímidas sombras mudas, carregadas de intenções suspeitas – mas porque teriam os sonhos de ser enigmáticos? São apenas personagens que nos usam o nome, como máscaras que não riem senão sardónicas quando desaparecem num arrepio. Ignoramos o que os animais pensam dos sonhos, que utilidade lhes dão ou como reagem quando estranhos ocupam o seu pequeno lugar num «mim» pouco individual. Mas a grande diferença é que os animais se aceitam e resignam ao que lhes acontece enquanto os humanos atiram para os sonhos a sua cobardia. Não compreendem que é animal muito do que nos sonhos surde, que é inargumentável a onirologia, que nem nos animais mais simples as manifestações sobrenaturais se objetivam. Prefere-se abusar de uma indulgente inteligência onírica e perder tempo em divinações que são profecias que se auto-confirmam em vez de ouvir a voz de Darwin discutindo com Freud as mais importantes questões da humanidade. Será realmente sustentável o seu lugar planetário? Essas questões colocam-se para cada um de nós de uma forma uniforme? Sim, todos os sonhos são transformações do mesmo sono animal. Alguns de nós complicam-nos para os decifrarem depois com grande aparato divinatório, outros, nem os recordam tal como os galos, os lobos, os ratos, os cavalos, o que lhes aparece inesperado na noite são transformações luminosas dos seus temores diurnos. Os animais não querem saber se os homens sonham. Supõem que, como eles, sonhamos e que os nossos sonhos nos devolvem o que merecemos, mas desmanchando o sobrenatural de um modo que pode ser desdenhado e esquecido, ou decomposto em tantas partes quantos os altares onde pousem (esta fragmentação do sobrenatural, tornado facultativo ou mitificado, é não ter natureza).