Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o oriente donde vem tudo

A meditação é uma perda de tempo quando a praticamos orientalmente. No oriente tenta-se conviver com a precariedade. Nós, meditando, tentamos demonstrar que há um nada presente em tudo e, frequentemente, concluímos haver um tudo incluso no nada. Este autocontrolo com que pretendemos lidar com o tudo e com o nada educa-se de pequeno quando os instintos alimentam uma busca de satisfação imediata e recebem, com uma brutalidade por vezes inclemente, uma pressão para se submeterem às regras sociais. Nem sempre os pais passam a mensagem do sucesso: «Quase tudo te será possível, mas tens que ter a manha de esperar a oportunidade certa». Raramente nos deram as melhores razões, raramente nos ensinaram explicitamente as vantagens da integridade. Assim a meditação incide sobre o tempo que passou; ela remói e mastiga cada gesto e cada gesto é, cada vez mais, perpetrado com um olho no polícia e outro no bandido pois, se dermos uma esmola, também o mesmo mendigo nos poderá roubar; e o polícia quererá que paguemos impostos sobre a esmola por créditos morais indiretos obtidos de que poderemos abusar de uma forma ilegal. Custa controlar este sistema de desejos castrados. Custou crescer, montar o corpo para a cidadania e, agora, executar com sucesso um plano biopsicosociocultural que se lhe aplique. Tudo isto que pensamos conscientemente constitui um pesado fardo de que nos tentamos livrar com a meditação. Tentamos safar o corpo das dores nas costas, do pescoço com torcicolo, das cólicas e dos gases intempestivos, sobretudo, tentamos compreender a profundeza da ansiedade e, com a meditação, ver a transparência da alma a voar numa capoeira higienizada e com ar condicionado. Podemos meditar em intimidade fazendo pequenas batotas, mas num coletivo de dezenas de pessoas de olhos fechados e recebendo o nada com uma seráfica beatitude, somos contagiados por uma transcendência, naquele instante, ilimitada em que tudo é claro e homólogo do corpo. Acreditamos meditando. Perdendo esse tempo acreditamos num autocontrolo globalizado em que todos somos pequenos budas desapossados de uma canga de luxos supérflua em troca de uma alimentação com legumes biológicos. Assim, a meditação que é uma solução individual, retirará da economia de mercado todos os que atingirem esse nada essencial da perfeição, essa disponibilidade para um tudo universal, sobretudo, essa hiperconsciência coletiva que dá dignidade aos seres em que reencarnamos. Ignoramos o que nos restará quando formos simples e lúcidos vivendo no nosso arranha-céus como no mosteiro no Tibete desejando apenas que o tempo passe e que o percamos para o tudo. É no que meditamos.