Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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como equilibrar a vida com soluções simples

 

Recomendei a muitas pessoas que adquirissem um cão, muitas pessoas bondosas, organizadas, bons donos e donas-de-casa que têm vazias as suas casas, raramente visitadas por um filho ou um amigo ou um primo da província, pessoas que não encontram na leitura um sentido e uma tranquilidade, uma paz e sentem que têm alguma coisas a dar que ninguém quer receber. Também porque há muitas pessoas capazes de ser mais generosas com um cão do que com um irmão que a pode, mais tarde, desiludir, caluniar ou roubar. Acariciam ternamente a cabeça do animal que se roja aos seus pés como um sedutor grotesco, mas cumprimentam secamente a vizinhança com quem se cruzam, há anos, a caminho do mercado, indisponíveis para um sorriso aberto ou para se deterem e perguntarem pelo esposo doente em casa há anos, o que chegava bêbedo e altercava por nada. Porque muitas pessoas falam bem com os cães – numa linguagem vocativa, grave e ronronante, que também usamos para falar às crianças de tenra idade ou quando falamos para nós próprios exortando-nos a resistir ou a acreditar nos nossos erros e nas nossas desrazões. Trata-se de uma linguagem interminável que se interrompe e retoma hora após hora, dia após dia, ano após ano até que morra o animal como se intoxicado pelas palavras que lhe dedicámos porque odiamos o resto do mundo. Há pessoas a quem o silêncio amargura como se significasse despropósito e o despropósito fosse uma condenação à morte. Leram a Declaração Universal dos Direitos do Homem, reconheceram ter satisfeitas as suas pretensões e nada mais lhes ser devido, mas percebem o essencial não estar garantido pelo estado de direito, mas por um singelo animal que lhes lambe as lágrimas, ou que nem isso, mas que existe e tem fome e deposita-lhes num canto da cozinha uma caca que é preciso limpar. Tantas pessoas quiseram não ter direitos e serem cuidadas, tratadas num esclavagismo manso que a pouco as obrigasse, que lhes organizasse uma vida sem nada para decidir como agora o cão lhes pauta as horas de sair de casa para passear o animal, uma forma de liberdade que não cansa, externamente decidida. Dispor-se-iam a uma escravidão que lhes retirasse tudo o que possuem e lhes pesa em troca do que dão ao cão: afeto à descrição, uma alimentação científica, segurança para o resto da vida e o espetáculo da própria intimidade – uma intimidade fácil de aceitar que julagamos representar a humanidade em versão terceira idade. Porque um cão está geneticamente preparado para amar, disposto à comiseração, à simpatia incondicional até pelo pior de nós (ao contrário do gato cuja graça é abusar da nossa atabalhoada afetividade). Um cão alegra-se connosco, adoece se entristecermos ou se o nosso clube perder. Nenhum amante é capaz de tão devotada simpatia em troca de tão pouco que é tudo o que temos para dar. Por isso, ninguém nos aceitou e continuamos sós. Pelo contrário, ele reconhece-nos sempre como os seus ídolos, os senhores absolutos, o supremo arbítrio e fonte de toda a justiça, da providência e da ordem natural (dentro de casa).