Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

esboço de uma teoria geral da estupidez

É difícil encontrar uma causa específica para a estupidez por várias razões: 1) manifesta-se frequentemente em pessoas que não são estúpidas; 2) assistimos a momentos brilhantes de pessoas estúpidas; 3) as definições de estupidez ou são estúpidas ou estreitas (restringem-na à falta de inteligência) ou incomprováveis; 4) há pessoas intencionalmente estúpidas que não são estúpidas, mas 5) há pessoas intencionalmente não estúpidas que o são; 6) há pessoas que disfarçam bem a estupidez; 7) muitas pessoas são insensíveis à estupidez; 8) muitos estúpidos são pouco críticos em relação às manifestações da sua própria estupidez e, se são belos, insinuam-se e enganam, se são desavergonhados, insinuam-se e enganam, se são vaidosos, insinuam-se e enganam, se são faladores, insinuam-se e enganam (retirando vantagens de 7)); 9) raros estúpidos são humildes e esses contam com a generosidade dos outros; 10) muitos estúpidos não o são o suficiente para merecer a generosidade dos outros; 11) muitos dos que dissertam inteligentemente sobre a estupidez não conseguem dar-lhe todo o vasto colorido que ela tem, intuímos essas várias manifestações da estupidez e reagimos como à canalhagem; 12) porque há uma falta de graça que parece estupidez e é inépcia social sendo esta relativa ao senso de humor de quem assim a estima; 13) e vice-versa, pessoas que decoram anedotas e que aprenderam a fazer os outros rir e são primitivos; 14) a rapidez complica o diagnóstico da estupidez: tal como há pessoas que caminham lenta e prudentemente na direção certa, o seu raciocínio pode ser homólogo (não nos precipitemos a julgar os lentos); 15) alguns muito fluentes e confiantes estonteiam-nos com o seu elevado débito verbal, o que dizem pode ser irrelevante (e maçador); 16) muito importante e politicamente correto: muitos primitivos parecem estúpidos pela escassa elaboração dos seus raciocínios, mas percebemos o potencial da sua inteligência, se tivessem uma oportunidade de a cultivarem; 17) eu uso da minha autoridade de autor para me colocar de fora deste arrazoado (ser capaz de escrever um texto sobre a estupidez não coloca ninguém nem dentro nem fora da estupidez). Não podemos aplicar teorias probabilísticas à estupidez (no sentido de não partilharmos a nossa parte da estupidez universal) nem teorias evolucionistas (no sentido de a competição desfavorecer os estúpidos e relegá-los para a periferia do sistema) pois a estupidez dissemina-se no tecido social como a gripe, aparece em lugares insuspeitos pois são volúveis os critérios de seleção para esses lugares (os estúpidos bajulantes, os estúpidos íntimos, os estúpidos manhosos, os estúpidos consensualistas, os estúpidos inertes), ou seja, para cada variedade de inteligente, há uma variedade de estúpido capaz de o enganar. Esta sistematização da estupidez permitirá chegar a síndromes específicos articulados com supostos agentes etiológicos: 1) Estupidez pedagógica induzida pelos progenitores: a) variante minor ou falsa estupidez dos inseguros e dos tímidos, retraídos no seu buraco como falsos incapazes, e b) variante narcísica, a dos enfatuados que julgam ter o reino na barriga e são verdadeiros ursos que nos fazem vomitar. 2) Estupidez cosmogónica provocada por ideias, crenças, superstições ou por gazes atmosféricos, tóxicos cerebrais. 3) Estupidez por restrição de cérebro, herdada ou adquirida, a mais fácil de tolerar. 4) Estupidez moral, a mais difícil de tolerar, mas a mais protegida pela legislação.