Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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paracetamol

É um comprimido branco o paracetamol. Minutos depois, o mal-estar, a febrícula, as dores de cabeça passaram, mas não é a cura, é o efeito do paracetamol. Na verdade, tudo pode estar a piorar no interior do corpo, a multiplicarem-se as colónias de bactérias e de vírus, as nossas defesas a diminuírem, mas com paracetamol o corpo sossega. Ignoro onde se dá o efeito, se se trata de uma campanha maciça pela paz em todas as células do corpo, assim inundadas de uma beatitude química generalizada, se é, apenas, um efeito transitório sobre os mediadores da inflamação, ou se o efeito do paracetamol é uma pura ilusão cerebral de paz, uma falsa trégua que não impõe que o inimigo detenha a sua ofensiva. Mas é assim que pensamos o bem e o mal, é assim que pensamos o bem-estar e a paz, a harmonia do corpo e dos seus ritmos, a quietude dos órgãos mais rebeldes. Acreditamos que se não dói, não há dano. Mas há: quando o efeito passa, a perturbação retoma. Fingimo-nos surpresos, mas sabemos o efeito do paracetamol apenas mascarar a doença e, quanto a esta, esperamos que o tempo cure todas as maleitas. O paracetamol não atua no tempo, não o torna benfazejo nem garante um desenlace favorável para a infeção ainda que o nosso comportamento moral seja irrepreensível. Assim, há pessoas muito pacificadas com o paracetamol ou com outros analgésicos, que morrem paliativamente. Tenho dúvidas sobre a dignidade de tomar paracetamol, se não deveríamos antes, gritar, contorcermo-nos com dores, convulsivar até, como se os demónios da doença se assustassem ou, pelo menos, rebelar-nos contra a ordem natural que nos vence quando passámos toda a vida num meio artificial. Aqui começaria a discussão aborrecida sobre as virtudes da natureza como se possuísse uma bondade intrínseca em oposição às tecnologias e aos cenários factícios em que vivemos. É impossível decidir, mas a questão será facilitada porque em breve pouca natureza haverá a que retornar.