Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

as palavras de cada género

A própria definição de «mulher fatal» é demasiado explícita se a olhamos a partir dos casos em que a vimos aplicada com propriedade. O critério são desenlaces amorosos com nítidos e vantajosos triunfos o que se tem associado a uma apresentação e a um estilo hiperfeminino relativamente estabilizado ou, melhor dizendo, independente da circunstância ou do discurso. A pose é uma atitude e a atitude impõe a pose mesmo que não haja um interesse material na situação como se o hiperfeminino fosse uma máscara indistinta de um caráter que não se chegou a formar ou como se nela o sexo feminino preenchesse toda a existência e pudesse suprir todas as necessidades. É a mensagem que passa a mulher fatal: «Prometo-te tudo, se me deres tudo», mas tudo é um limite onde só cabe quem domina e a fatalidade espalha-se e a ilusão é assimétrica. Será a mãe a temível indutora da paixão?, a filha preparada com um sexo de cobrador de impostos? Muitas questões sobre a profundidade dos motivos para os comportamentos enraízam numa época de deslumbramentos inarráveis. Talvez tudo tenha começado das cinzas de alguma forma condensada do tempo. As especulações são muitas, a maior parte interroga as palavras ou recombina-as de modo a resolverem as suas contradições, mas é nelas que os caminhos se abrem. As palavras vestem o corpo com o tiquetaque de uma bomba-relógio. O banqueiro poderá não existir ou apenas alguém a passar sem se insinuar sequer: o carteiro, o polícia de giro ou um vendedor desativado; «mulher fatal» são conotações e expectativas num jogo de imaginações solitárias: o decote, o recorte da silhueta, as madeixas quando soltam o rosto são vertigens fílmicas enquanto as promessas do olhar são mastigadas como um chocolate inacessível. O que conta é o feminino como receptáculo fremente e condicional – permanentemente preparado para ser admirado devendo ser materializável tal admiração. Não tanto numa joia, num jantar, num adereço de luxo, a mulher fatal quer o que não lhe é oferecido por isso a sua insaciedade é fatal. Poderíamos valorizar a mulher fatal como uma heroína insubmissa à ordem masculina, assim reformulando este síndrome em termos de poder, mas estaremos a fugir do ponto que é a profunda inscrição do feminino como extorsão, como se a porta da gruta se fechasse e asfixiássemos no meio dos tesouros. Apontar o 007 como a sua contraparte masculina retira a fatalidade à vulgar sedução. Como outros donjuans, 007 é um sexista extensivo, nada pretende além da cópula com uma parceira instantaneamente aliciante, não a submete, quere-a luxuriante, nada lhe sonega, nem pretende mais que cultivar um estilo, não a prejudica, diz-se partidário de um prazer equitativo; é, apenas um desviante matrimonial, um oportunista para oportunistas. Mas não podemos dizer que alimenta os devaneios amorosos pela vida adentro como o Cavaleiro de Chamilly, mesmo porque esses devaneios se tornam pura literatura em Adília Lopes e, em Fernando Pessoa, a literatura dos devaneios dá-se sem devaneios. É o modo radical de escapar a uma mulher fatal.