Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

prolegómenos e inconclusões (sobre a Europa)

Quando penso um tema como a Europa, por exemplo, ou quando planeio o fim-de-semana ou, até, quando nada penso, que é uma espécie de operação predicativa com um valor nulo atribuído a tudo o que possa ser pensado, ignoro onde o pensamento começou e onde irá desembocar. Além do que aparece numa torrente cenográfica onde sou um átomo democrático, sou, mais consistentemente, uma estrutura que pressinto em ruído neuronal, como se o cérebro fosse um jardim zoológico disposto em camadas: a gaiola dos répteis inertes ao sol como monges budistas, a camada das grandes aves de altitude aterradas em simulacros de penhascos, a jaula dos predadores reverenciada como modelo de bravura pelos super-homens do circo e outros académicos da fama, uma camada com a jaula dos símios, como eu à espera que a linguagem apareça. Na camada superior, as comunidades dos insetos isoladas em pequenos nichos numa sala penumbrosa, parece significar uma individualidade esmigalhada por rainhas-mães ocultas num hipocampo qualquer. Reconheço que não sei o que sou, a estadia num cenário sem legendas que o descrevam é enigmática como a chegada a uma ilha após o naufrágio. A Europa não é uma ilha como a Grã-Bretanha, mas uma pequena península de uma enorme Ásia e quando a pensamos é difícil dizer onde começou. Recuamos até à África gigante e solarenga onde ainda hoje latejam formas inéditas de vida, onde os répteis do meu cérebro são felizes em rios tépidos, onde as aves emplumadas vivem e morrem por uma indefinida altitude, os predadores matam com a satisfação da sua lógica social, os chimpanzés dizem o indizível de uma luxúria que aparece nos meus poemas – a selva com os insetos autistas de uma subfilosofia inexpugnável. A Grã-Bretanha entra e sai da Europa tal como posso sintetizar as más razões do meu pensamento num touro no meio da arena ou num slogan pelos direitos dos animais. É uma operação semântica. Há um paleolítico submerso no que penso tal como há um inconsciente inglês que mantém o desejo aprisionado como o dragão em Loch Ness. Ignoro em qual das jaulas guardo a rainha Vitória e o resto do império por resolver. O meu pensamento protege-se. Não gosta de intuições. Supõe e pensa como se nada de relevante existisse anterior ao pensamento, mas pensa frequentemente no que é relevante anterior ao pensamento quando quer pensar o tempo ou a Europa e o que ela significa.