Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

as ligações difíceis

Poderemos continuar a tomar o nosso cérebro como o amigo com quem jantamos com agrado e nos conhece intimamente ou ele tornou-se outra coisa, diferente de nós que temos a responsabilidade do «eu», de bem o usar, de o levar a algum lugar, de lhe criar condições históricas, como quando construímos as personagens de um romance? Não se trata de fazer o eu triunfar sobre a mecânica do cérebro nem sobre a arrevesada mecânica social, mas de o fazer continuar a dirigir uma representação mais ou menos realista que designamos por «minha vida». Temos de o impedir de andar, nas suas horas de ócio, à deriva pelas ruas da cidade, como uma prostituta, sem ter de o amarrar à secretaria da biblioteca de um cliente compulsivo de prostitutas. A linguagem é apenas uma estrada de montanha com fabulosas vistas que se encontra bloqueada por uma avalanche a meio da encosta. Os utilizadores criam novas estradas alternativas para contornar o bloqueio, mas que, por sua vez, também são bloqueadas por outras tantas avalanches. Mais vale evitarmos as grandes narrativas, as justificações que enraízam o pensamento num solo opaco donde nada se vê, evitar ainda solenes declarações, quer as que louvam os mitos e deixam o cérebro a pedinchar na rua quer as que o dissolvem num extracto para consumo homeopático com anúncios sugestivos (mas eventualmente enganadores: cure os seus complexos de inferioridade, afaste o infortúnio para sempre, as doenças da bexiga, o tédio amoroso; ou abertamente incríveis: organize o seu cérebro a partir da eternidade da alma como Ramsés III, construa a maior pirâmide do mundo e deixe-a desocupada pois toda a adversidade é convertível em riso). Portanto, escondemos a frágil amizade entre o eu e o cérebro, evitamos falar dela como das relações muito apaixonadas, mas socialmente inconvenientes; evitamos confrontá-los com o que fazem falhar gabarolando-se sempre dos seus pequenos poderes. Começamos a reparar como aborrecemos todo o mundo com a vanglória que só frente ao espelho, num recolhimento soturno, sentimos em plenitude. Hoje dizemos: «O cérebro ganha uma aterosclerose impossível de desentupir, o eu esquece-se do que comeu ao jantar e dos grandes momentos da própria cobardia, indiscriminadamente, mas a demência não é uma desculpa». O estado responde-nos: «Hoje já não te mando para a prisão, mas obrigo-te a colocares um chip que te avassala aos meus códigos. E terás que alto gritar que és livre e me defendes».