Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o final do ano

 

Por vezes, chegamos ao fim do ano com a maior parte dos assuntos resolvidos. Alguns resolveram-se de facto ou encontraram situações que pudemos declarar soluções, outros concluímos que eram problemas mal postos ou que não deveríamos ter tido a ousadia de os colocar. Isto porque: 1) deveríamos ter excluído todos os que não dependem de uma causalidade simples; 2) deveríamos ter inventariado todas as causas simples; 3) deveríamos tê-las impedido de se tornarem complexas; 4) deveríamos ter excluído todos os fatores moduladores afetivos e emocionais; 5) deveríamos ter pensado que um ano é uma escala demasiado grande para muitos fenómenos cujo rasto se perde nessa demora, mas uma escala ínfima, até para pensar a vida de um humano. Comentários: a 1) Os humanos chamam liberdade ao seu essencial inacabamento: a) o qual persiste como abertura ou como mal-trapalhice, como esplendor ou como libertinagem, como nobreza ou como indolência; b) a vontade adquire matizes heroicos ou fanáticos, comprometidos ou indulgentes, como uma tela semiacabada é declarada pronta pelo pintor; c) a própria mentira, se não é assim declarada pelo mentiroso, fica um assunto social incómodo. A 2) Os humanos nunca especificam convenientemente que tarefas se propõem realizar: a) a maior parte das obras, ou um simples poema, resultam de encadeamentos simples de frases e o resultado, embora belo, não é complexo (poderá ser refutado e continuar belo); b) se uma situação mudou por ação humana, sem ação humana como mudaria?, ou seja, como muda o homem inativo?; c) as duas mãos podem não coincidir numa intenção; dois amantes podem não coincidir numa intenção; uma população de patriotas pode envolver-se numa guerra civil. A 3) Os humanos criam complexidade ora por laxidão e incompetência ora como se fossem inerentes à vida a curiosidade e o risco: a) as causas complexas não são belas, apenas nos estimulam para que as decifremos ou para que estabeleçamos a sua lei; b) mas podem sê-lo como uma tempestade na Nazaré; c) as situações complexas podem ser simplificadas e declarado ruído e inutilidade o que ficou de fora, mas esta decisão não é argumentável (por isso é complexa). 4) Os humanos são confusos a pensar e ainda mais quando se permitem declarar o que está certo e o que condenam: a) a vaidade é como usar uma pistola; b) a dignidade é uma máscara antigás desativada, mas essencial para o poema; c) a vingança é um vidro fosco. A 5) Os humanos usam relógio e é comum comunicarem perguntando as horas: a) a linguagem não impõe nada; b) os ciclos curtos podem corresponder a intenções satisfeitas (a subjetividade impera ao falarmos de uma vida numa perspetiva cronométrica); c) a linguagem não tem de ser enunciada e, ainda assim, alguns dos problemas que pensámos resolvidos poderemos voltar a eles no próximo ano.