Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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mães e filhos: expetativas e realidade

Às mães só os filhos lhes interessa o que torna monotemáticas as suas conversas sobre as conquistas dos rebentos. Como se não fosse previsível que, apesar das suas nebulosas pedagogias, aprendessem a descascar uma banana e, depois, a fazer cocó no penico ou a responder que têm dois anos. Não se pode inferir a genialidade a partir destas aquisições comuns a todos os humanos e a outros primatas. Muitas mães olham os genitais dos filhos e perguntam ternamente o que lhes acontecerá. Auguram-lhes uma secreta genialidade messiânica como se os seus filhos fossem Cristos e Madalenas, mas temem a tensão com um programa de estatização da criança: o estado apodera-se do filho com vista a que seja um cidadão com opiniões e capaz de votar. Podemos pôr a hipótese de uma monstruosidade virtual inerente à maternidade na centelha de humanidade com que a criança nasce. O problema que se coloca é de quem é a responsabilidade de lhe dar um destino. Na mente dos pais, a deformidade do mundo: crescer em luta pela miniaturização da vida: o filho enorme, jogador de rugby, bebendo o biberão, chochando e balbuciando pequenos protestos que não afetam a dependência dos pais. Mais tarde, que os cuidem, que lhes mudem as fraldas, que escutem as suas lamúrias, que lhes amparem o reumático. Crescer doutro modo é como introduzir novas regras a meio do xadrez: o jogo estava definido para as brancas ganharem; com as novas regras cada peça inventa o seu funcionamento, os cidadãos recém-aparecidos disputam aos pais a autonomia, roubam pequenas moedas dos seus bolsos distraídos. Estes fingem-se surpreendidos, zangam-se, sofrem durante a adolescência dos filhos, mas já não contam aos vizinhos as deambulações dos rebentos. Esperam um neto, um dia. Que compense o que o filho não lhes deu, mas não é com o mesmo entusiasmo que falam das conquistas dos netos nos bancos do jardim.