Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO   Malgrado toda a psicologia que pomos no assunto, ainda hoje é difícil avaliar o que viabiliza o amor. Vemos juntas pessoas muito felizes, outras que se detestam e sofrem julgando ter razão, outras ainda que definham consumidas pela desesperança do abandono. Algumas usam o amor para simplesmente procriar com entusiasmo, mas também existe quem abuse do entusiasmo de quem quer procriar. Portanto, é difícil ainda, sequer, listar os fatores que condicionam a coesão de uma relação bem como os que a minam. Tal como é difícil avaliar a veracidade de muitas coisas, é inconclusivo distinguir em cada género as estratégias implicadas nas relações. Por exemplo, como um vulgar sociobiólogo, contabilizar oócitos e espermatozoides e criar paradoxos com as desproporções. Porventura, a principal caraterística biológica da espécie humana é ter anulado o impacto do sexo nos comportamentos de acasalamento. Tendemos a atribuir à cultura estas conquistas cívicas que prezamos muito, mas ignoramos se danificarão procedimentos reprodutivos que evoluem há milhões de anos. Agora conhecemo-nos demasiado bem e amamo-nos ou destruímo-nos com maior eficiência, embora com os efeitos mais limitados juridicamente. Se tivéssemos que refundar uma teoria geral do amor, consideraríamos: 1) modular o papel das grandes forças que determinam a paixão e que liquidam a paixão; 2) regular o papel do acaso sobre uma libido convexa, em qualquer caso, adoçando os impulsos, demasiadas vezes, incontroláveis; 3) o papel do acaso e dos seus acidentes meteorológicos e sociológicos: todos os casais deveriam ter direito a uma lua-cheia espampanante na noite do primeiro encontro e, no regresso, a uma greve nos transportes públicos. No capítulo 1, veríamos cada molécula do universo ensaiar formatos de aglutinação com outras moléculas de modo a criar estruturas crescentemente mais complexas que implicam teorias de outro nível, também crescentemente mais complexas. Tem-se designado por «natureza» esta furiosa organização que desconjunta, congrega ou reconjunta as moléculas com um cimento muito coesivo designado «amor», uma tendência geral da matéria para ciclos de complexidade/caos. Esta humanidade escreve poesia e códigos e teorias e constrói monumentos para sua própria glória, constrói também, bombas nucleares e vive na eminência de uma guerra que reduzirá a cinzas a complexidade alcançada. Porque existem limites para a complexidade: quando se atinge um teto de beleza ou de justiça e perfeição social ou de harmonia e sintonia com alguém ou com tudo, o nosso cérebro não aguenta e destrói tudo para não se desfazer ele mesmo. No capítulo 2, a libido é um camaleão com insónias sempre à espreita de uma distração para saltar sobre o escaravelho-fêmea que acabou de devorar o macho com quem copulou perante o sociobiólogo estupefacto; procuramos metáforas para o acaso, uma dor numa cadeia de alienantes pressuposições. No capítulo 3, assistimos ao inexplicável e ao hipercomplexo, meros efeitos de escala. Os nossos olhos são um filtro demasiado claro: as coisas surtem evidentes, sem lugar para a espessura metafísica da transcendência: as nuvens simplesmente aglomeram-se, carregam o céu de um negro elétrico insuportável e negativo que o acaso desfaz em relâmpagos. Está tudo dito e se nos abraçamos é porque temos medo e nos queremos proteger. Se passada a tempestade, uma lua-cheia espampanante aparece, logo tomamos a situação como prenúncio de um bom augúrio e mantemo-nos abraçados omitindo que o início da situação foi uma tempestade que achámos temível. Mais tarde, quando numas curtas férias românticas, se depara com uma greve da aviação, percebemos o logro e repensamos tudo ao contrário: a tempestade e o medo como mau augúrio e concordamos em acabar a relação que julgámos eterna. Nisto os grandes amantes adotam uma escala trágica: com uma abrangência poética duvidam de tudo o que lhes parece evidente: do amor que aglutinou as nuvens e deu espessura ao céu. Estas, cobrindo a lua-cheia, criaram a ocasião de um abraço. Tudo isto que acontece são peripécias de forças irónicas que procuram equilibrar-se e nos arrastam para um destino. Tanto podemos dizer que pensamos demasiado como que pensamos mal ou que falhamos as coisas verdadeiramente determinantes ou que nada é verdadeiramente determinante e as coisas que como tal se afiguram são aglutinações de factos simples como o amor que, tal como nos uniu e às nuvens, também pode apagar-se sem o aparato de uma trovoada.

O SISTEMA FUNCIONA COM PESSOAS INSIGNIFICANTES 

Somos todos insignificantes. Somos muitos e intersubstituíveis sem grandes sobressaltos sistémicos. É a partir da nossa insignificância que damos significado uns aos outros, mas ser significativo não é sair da insignificância pois a insignificância das pessoas para quem somos significativos também nos torna insignificantes. Ser insignificante é um estilo, uma relação com a vida marcada pelo cumprimento e pela dedicação. As coisas simples impõem funções e ritmos plácidos, mas deixam amplitude para uma suficiência que roça o transcendente o qual, contudo, persiste inconclusivo. Como se pertencesse à própria transcendência definir-se de uma forma imprecisa ou formular-se com precisão usando conceitos imprecisos ou não mensuráveis de modo a: 1) ocupar as pessoas insignificantes com formas específicas de aceitação das coisas não evidentes; 2) entorpecer as pessoas insignificantes com discursos arrebatadores sobre a transcendência de coisas que devem ser tomadas como significativas, 3) frustrar as pessoas insignificantes que não encontram a transcendência que procuram e se embebedam para não sentir o vazio, 4) alimentar o diálogo sobre a transcendência em que cada pessoa procura alimentar a sua fé com a fé do outro, assim desfazendo as suas dúvidas, 5) reunir as pessoas insignificantes numa forma comum de dúvida, 6) pois no que toca à transcendência as pessoas não insignificantes e que são, ainda assim, bem intencionadas, são mais imprecisas nos seus conceitos e tendem a abusar da nossa credibilidade nas palavras; 7) essas não pertencem ao «todos» inicial: tiveram biografias e autobiografias publicadas tornando-se personagens além da sua insignificante vida. Portanto, concluímos, somos todos insignificantes, mas nalguns polarizaram-se papéis críticos, necessários nos momentos históricos em que o sistema se arrisca a implodir; a figura da pessoa significativa é um estereótipo mítico que então surge, sempre o mesmo em qualquer época, sempre com uma retórica sub-reptícia sobre a transcendência com a qual reconforta as pessoas insignificantes.

O AR DE FAMÍLIA  

É preciso observar cuidadosamente os próprios sonhos. Eles mostram-nos uma engrenagem que liga o passado mais primitivo (até o anterior ao ser e ao pensamento), ao futuro mais distante (até àquele que já não nos está reservado). Os sonhos irradiam de um livro comum, tal como os outros órgãos do corpo, por isso, eles continuam-se de noite para noite, eles completam-se como um teatro que não sai de cena, as personagens juntam-se como se todas se conhecessem e tivessem razões umas contra ou a favor das outras. Observando cuidadosamente os nossos sonhos conhecemos o que silenciámos aos nossos filhos ou o que nunca escreveríamos num poema nem é aludido nas nossas ladainhas aos deuses dos tempos. Como se os nossos cérebros integrassem zonas específicas de silêncio das quais irradia, como poderosas nuvens de fumo, aquilo com que entretemos as conversações. O argumento parece uma simples analogia espalhafatosa, mas apela à unidade comum do humano (o que é um bom princípio de correção política), não tanto a partilha de mitos constitutivos do pensamento (logo, constrangedores, limitativos), mas da existência de aterradoras zonas de vazio, sempre as mesmas em todos os tempos em todos os lugares e circunstâncias, sempre o mesmo calafrio perante uma imagem que imaginamos esfacelada, decomposta, esvaída, mas que nunca ninguém viu – molde de uma verdade negativa. Nem sequer se pode dizer que seja invisível e exista, apenas que nos faz sonhar os mesmos sonhos, temer os mesmos desenlaces, sobretudo, que nos faz falar de coisas que conhecemos e partilhamos como se tivéssemos tido uma infância comum, nascidos de uma mãe universal e intemporal que dá o mesmo a todos os filhos, também os mesmos terrores e o mesmo modo de pensar o que não conseguimos pensar. Por vezes aborrece-nos essa matriz em que reconhecemos em tudo o que vemos de novo e nos devia surpreender e alegrar, um ar de família como de um sonho já sonhado ou como, numa interpretação vanguardista da maternidade, encontramos ainda a Vénus de Willendorf.

POETA INDULGENTE NA FASE ORAL DA SUA POESIA  

Por vezes, o caramelo agarra-se aos dedos e temos de procurar uma razão séria para não nos suicidarmos. Estamos perante uma configuração crítica das coisas: as razões encavalitaram-se numa Babel de imagens de terror. Pensamos na heurística muito ativa que nos transformou num mero espelho do terapeuta. Ficámos no seu devaneio: o seu outro sendo nós (e ele) a nitidez da falsidade democrática que reside no eu. Nos piores momentos come-se chocolate com gula de um herói paleolítico à procura de mulher. Alguém que, na sua gruta perdido, reúne-se na sedução de um discurso direto sobre si próprio. Por exemplo: «Abandono-me às palavras, miríades de pássaros que o vento revés da cidade insufla. Desmancho-as como instrumentos de fratura, de trepanação, de resistência. Sou, no seu ninho, a eloquência da metáfora. Sou mapa sem rumo – abertura e epígono de um poema versátil onde sou o seu continente vazio, o seu caminho invisível». Pode-se deixar a sessão acabar sem se tentar uma conclusão. Qualquer que fosse, seria construir o mundo a partir de uma lua idealizada, nem máscula nem feminil, sem pai nem mãe, nem terra, nem forma, nem sombra. Teria a duração do olhar que se despede, que desistiu de encontrar. Resignamo-nos a uma solução asténica: com os dedos peganhentos, não os lambemos, não os lavamos, vamos espalhando dedadas pelo mobiliário, pelos livros, pelos instrumentos que agarramos e logo largamos porque estão peganhentos. As hipóteses que pusemos irão falhar. Arrasada qualquer possibilidade de retorno (seria um final que se alargaria a tudo; nenhum poema pode encerrar com um tal excesso de doçura por remover). De qualquer modo, já não acreditamos numa autenticidade primordial. Nem acreditamos que o poeta se pretendia suicidar quando partiu para o deserto como um vulgar negociante de armamento.

A POLUIÇÃO LITERÁRIA  

Hoje, a literatura tem o seu auditório muito restringido, contudo, a sua voz ainda se dirige à humanidade que a deveria escutar em bicos dos pés. Mas não é o que se passa. A humanidade pouco escuta. As mensagens que lhe chegam são cada vez mais curtas. São grunhidos, ou zurros, ou outros guinchos que perderam o caráter articulado e logicamente encadeado da linguagem, até da linguagem dos golfinhos. Tudo porque o livro deixou de ser o veículo das melhores ideias e também porque se escreveram demasiados livros inúteis. Escrever bons livros inúteis tornou-se um grande negócio, mas a humanidade fartou-se das suas frases estudadas, demasiado impróprias para uma declamação ao vivo. Hoje, os grandes escritores não escrevem. Os que têm, autenticamente, uma ideia para a humanidade redigem um simples manifesto ou dão-lhe a forma de um guião e passam-no aos industriais da edição para que lhe arranjem um destino. Poderá adotar o estilo de um videojogo muito viciante, de uma série ou novela, ou apresentado em pequenos capítulos em jornais de distribuição gratuita. Se o autor insistir no formato do livro, deverá escrever aos seus pares a explicar muito bem as razões porque é importante o seu livro. Poucos concordarão – e são eles os únicos eventuais leitores. Nem os amigos que troçam ternamente, nem os companheiros em rituais a dois em que se enaltecem mutuamente, nem o caixeiro da livrara. Ninguém. Mais uma vez, não conseguiu demonstrar quanto a humanidade melhoraria lendo o seu livro. Aos futebolistas, à atriz do calendário, ao cançonetista ou ao pregador evangelizador basta um gesto e logo os aplausos reflexos da turba simplória – os escritores de livros falharam. Só alguns amigos o leem, mas esses amigos também escreveram livros que ninguém leu. Assim se demarca o problema sociológico da ocupação dos escritores que são ótimas cabeças, desperdiçadas pela sociedade. Soluções: 1) Debater o problema num congresso mundial de escritores ou numa sessão especial da ONU. 2) As comissões da Europa deveriam regulamentar qualquer atividade escrivã, designadamente, criando impostos sobre as esferográficas e impostos sobre a utilização escrita de palavras. 3) Aumentar dezenas de vezes os direitos de autor para a primeira obra, e extingui-los para as subsequentes, de modo a tornar unívoca a relação de cada autor com a sua obra (nada de obra de juventude e obra tardia, nada de heterónimos); cada autor tem que pensar bem o que tem a dizer, pois, após a publicação do seu livro, está encerrada a sua obra. 4) Sem censurar a má literatura, investigar melhor os critérios de boa literatura, mas dissuadir da sua aplicação industrial (que os implicaria na má literatura). 5) Investigar a má literatura, taxá-la, e estabelecer curas de requalificação compulsiva para os seus praticantes, demoradas e com extensa bibliografia obrigatória. 6) Promover olimpíadas de literatura para leitores sobredotados, com várias modalidades: a) mais livros bons lidos, b) mais livros maus lidos, c) leitores na voz passiva, d) capacidade de citar autores, e) grandes recitadores de poesia. f) capacidade de fazer crítica. 7) Promover a escrita aforística, lapidar ou poética. 8) Censurar os escritores de obras volumosas como Proust e Tolstoi por não se terem dado ao trabalho de serem sucintos. 9) Tornar a escrita hieroglífica a única acessível às máquinas de impressão. 10) Criar em todos os países um departamento (ou um organismo especial da ONU) onde os novos livros estagiaram como o vinho do Porto e seriam sujeitos a várias revisões e cortes, e onde os novos escritores seriam industriados com vista a uma responsabilidade planetária e a uma cultura planetária.

MODO DE USAR O CÉREBRO  

Como se tivéssemos recebido o cérebro numa versão finalmente humana, começámos pelas perguntas mais difíceis: «Donde viemos? Para que vivemos? Para onde vamos?», mas não obtivemos respostas cabais. É sempre assim quando recebemos um brinquedo novo: explorar a sua utilidade a partir daquilo que ele não faz; descobrir o que ele não é e jogar com essa identidade negativa, como se fosse a imagem de um deus. A primeira função de qualquer cérebro evoluído é representar; para isso, interpreta e, para interpretar, pressupõe, isto é, inventa analogias que sirvam o que ele quer representar – assim é o teatro. Algumas personagens precisavam de um criador totalmente extrínseco, alguém que dissesse «Fui eu» e como tal fosse amado, mas a maior parte das configurações humanas sustêm-se, desde o princípio, em matrizes psicodramáticas invariantes; mitos e deuses que foram aparecendo à medida que o cérebro era capaz de formular novas perguntas. Quanto mais insustentáveis as convicções mais fanaticamente eram defendidas, até que, após algumas revoluções, se foi tomando consciência da injustiça e das virtudes que computam a felicidade. Pensou-se que, se o cérebro avaliar o que falha e o que falta para a perfeição, então é porque a perfeição é possível e vale a pena esperar. É esta espera secular que tem alimentado os milenarismos, os sebastianismos e, mais recentemente, os marxismos. Pode-se concluir, portanto, que esta versão do cérebro ainda não é definitiva pois põe-nos à espera de cenários que ele próprio cria; não é suficientemente sensata para evitar as consequências dos seus próprios vícios lógicos. O único modo de nos protegermos de tantos disparates é separarmos o eu do seu cérebro, isto é, habituarmo-nos à humildade de um pedinte à espera de uma solução como de uma esmola, espantarmo-nos com essa esmola, examiná-la antes de a usar. Só depois agradecer ao cérebro que, magnânimo e superior, nos sorri como se nos possuísse ou dependêssemos só dele.

AS DOENÇAS DAS PLANTAS

AS DOENÇAS DAS PLANTAS «Não suporto mais o leitor. Não suporto a contingência de o adivinhar no próximo verso, de adivinhar o próximo verso fixado nos seus olhos suplicantes como os da minha cadela «CNN-23» que morreu com esgana quando queria ser salva». Não se pode escrever poesia embasbacado na corporalidade de uma compreensão alheia: as imagens condensam-se como os vírus usam o nosso interior com paixão secreta e destrutiva, nós passivos numa posição filosófica abissal. As decisões (literárias): tentamos ser meigos e domésticos como cães com as vacinas em dia. (Propriamente, a escrita:) passeamo-nos pelas falésias íngremes parafraseando o Primun non nocere com a ideia de não nos estatelarmos nos rochedos ao apontar o barco afastar-se. É, também, a posição do leitor: parte de uma exatidão precária – aponta o que está além para que a replicação o inflame, lhe preencha propositados músculos inativos, para que, numa fé aberta, o amor repouse e a angústia do futuro adormeça: «Desapareço levando os versos nos pulmões sufocados, levando no sangue a água salobra dos meus poetas e exalo este poema para ouvidos adormecidos ou inexistentes». Prometeram-lhe a personagem principal da novela «Rima Bruxuleante», a ele ou a qualquer outro leitor que bruxuleie com a poesia; graçolas da piedade pública a escorregar sobre as gabarolices poéticas no proémio do imperativo categórico. Como os poetas, ele pratica um cinismo à defesa, mas não esqueçamos outras estratégias de glória mais eficazes. Uma quase-inexistência é uma virtude tão ativa como a hipergrafia. No exterior de ambas as condições necessárias não são suficientes. Um poeta não é um hipergrafista, mas o sujeito pré-verbal de uma consciência que não se pensa ou que não se pensa como alguém existindo tão só como um ator de sínteses muito sucintas. A consciência é este sentimento de incompreensão espácio-temporal: «Não posso passar todo o dia como um anatomista a pensar em mim ou como Kant a tentar ir além da linguagem, dos seus dotes, da sua cinematografia pouco convincente. Talvez nem mesmo com a poesia».

A PERSONALIDADE DE DARWIN NÃO INTERESSA AO DARWINISMO

Darwin era um tipo especial, não só pelo seu prodigioso mau-feitio, inesperado num evolucionista, mas pela forma como restringia a sua expressão emocional à mímica que identificou nos animais. Nunca foi visto a soltar uma boa gargalhada nem a chorar a prantos, apenas expressava a surpresa hínica de um observador da natureza, o contentamento brando de uma animalidade saciada, a raiva contida pela boa-educação e, sobretudo, o medo – um medo transversal a todos os indivíduos placentados, a todos os que experimentaram um rápido desenvolvimento em condições ótimas e foram obrigados a nascer para um mundo onde as coisas importantes são inconsensuais. Os cientistas moldam a vida à verdade das suas teorias; Darwin, desde que publicou a expressão emocional nos animais e no homem, sacrificou as suas próprias emoções. O seu amigo Freud atribuía a estes recalcamentos das emoções as desmesuradas dores de barriga e demais sintomas de fragilidade intestinal que atormentaram Darwin toda a vida. Fizeram-no triste e amargurado, só encontrando algum conforto na companhia de Emma, a sua esposa. Com estes sintomas dramáticos provocava a sua atenção tal como antes provocara a de seu pai, um médico assertivo e trabalhador, com pouco tempo para dedicar às pieguices do filho. Darwin era um obsessivo colecionista de conchas bivalves; foi quando adquiriu a famosa trilobite gigante do Cabo da Roca que fez a ligação dos moluscos ao grupo dos cordados, em particular aos cordatos portugueses que os espanhóis tomam por tristonhos. Darwin compreendeu-os bem: durante os anos da sua viagem pela América do Sul leu a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. O autor fascinou-o: a sua capacidade de respeitar a não-trivialidade das coisas triviais, seja nas treze vezes em que foi vendido como escravo, nas dezoito em que naufragou ou nas centenas em que saqueou, ou de alguma forma, violou o que deveria respeitar. Também, como identificava num organismo os seus traços estruturantes – é a lógica comum de um salteador e de um colecionista: perceber como cada coisa poderá ser atacada e colocada no devido lugar num retrato de grupo que representa toda a biosfera. É o ilimitado domínio de interesses de um aventureiro e de um colecionista – pois que tudo se relaciona com tudo e, se uma coisa nos interessa por algum aspeto, a outra coisa também me deverá interessar: tudo pode ser roubado ou classificado que é uma forma de apropriação. Por isso, como as crianças no auge do ateísmo, Darwin perguntava se as coisas não poderiam ser excluídas da sua espiral semântica e recolocadas numa outra linha, prévia aos sumérios e aos egípcios, prévia à linguagem que cava a diversidade das coisas – pois a vida irmana-se; nos seus diferentes formatos, a vida faz amar, competir, vencer, morrer – a vida evolui.

ASPIRINA  

Não me revejo na química do corpo, mas dói-me a cabeça. Intuitivamente relaciono a dor com o que ocupa a cabeça, aquilo que simplificadamente designamos por pensamento, trajetos de balões iluminados por dentro, num céu negro. A dor são os entrechoques quando a espiral do vento chupa as imagens e fá-las correr atrás do tempo. Onde antes me apareciam imagens de uma beleza alcançável, até sons de uma voz perdida cantando o que eu nunca saberei dizer, agora é um cenário de escuras labaredas refletidas no aço de um punhal. Outras imagens mais originais introduziriam conotações parasitas na significação punctiforme da dor e da geometria impossível que faz um ponto inchar até ser uma esfera maior que a cabeça onde bolas de chumbo ocupam o lugar da copa das árvores que a ventania arranca. Assim, mantenho a metáfora sem uma especial crença na inspiração nem na lógica de conjunto que transforma uma ramagem de pinheiro numa árvore de Natal. Dizem que o corpo tem vinte triliões de células todas com o mesmo genoma. A minha dor de cabeça é uma rebelião contra tamanha monotonia. É impossível que tal organização seja sempre silenciosa, apenas procedendo por rotinas como um exército que atravessa os Himalaias mantendo coesão e disciplina. Uma rede de mensageiros articula os passos dos soldados que replicam uma lógica de grupo. Esta isenta-os da benevolência de antigos aldeões; dispõe à expressão dilacerada da morte que, numa estrada de arrancamentos, pontua uma saúde invertida. A vida como uma anti-aspirina numa equação que otimiza a dor, que espicaça as violações, que cede à sodomia lancinante dos mitos, à pilhagem cega – e que, por humilhação, acaba vencida. 

SÓCRATES  

Não reconheço, no estatuto atual das minhas opiniões, a força televisiva de um triunfador. Não as diferencio bem das verdades que me ensinaram e das que nos impingem todos os dias como condição para as engrenagens sociais não griparem. A maior parte das visitas ao zoo são inconclusivas, a poesia pouco ameniza a crueldade dos grandes sistemas naturais. Se queremos ler a força latente da predação e da adaptabilidade como motores do sucesso, chegamos ao capitalismo mais inclemente de olhos fechados fuzilando os insolventes muito gordos, com a mochila cheia de bugigangas. O prazer, por outro lado, traz às explicações apenas a monumentalidade do presente, qualquer coisa como um relógio gelatinoso em estátua equestre deixando pingar minutos na boca de uma piranha. Acho que devia dar uma forma literária mais complexa ao que escrevo. A literatura parece um valor absoluto, não só pelos Prémios Nobel, em geral bem atribuídos, mais ou menos tardiamente, mas porque aglutina as melhores razões para o pensamento funcionar deixando-nos, ainda, liberdade para nos rebelarmos contra os pequenos tormentos da neurose. A partir da maturidade começamos a dedicar-nos cada vez mais à memória e menos à ação. Ignoramos se é a memória que pesa sobre a ação ou se esta ganha peso numa consciência muito complexa que não deixa espaço onde rebentem as vagas iniciadas noutros hemisférios. Por isso, tenho cuidado com o que revelo do que penso quando penso como tudo se deveria tornar maravilhoso. Não sei onde aplicar a minha bondade civilizacional: não podendo garantir que ela seja efetivamente benéfica, o meu cérebro neolítico gostaria de ser universal sem ter que ir às compras como um obstipado vulgar. Como seria a Alice, adulta e fora do País das Maravilhas? Casaria com Fernão Mendes Pinto e acompanhá-lo-ia ou continuaria a sua campanha infantil pelos direitos dos animais com o pássaro dódó proclamando a insustentabilidade das teorias darwinistas? A sua evidência, plausível para uns, não passará de pura escatologia, para outros? Eu tomo a minha opinião como evidente e julgo-a universal. Uma espécie de verdade. A opinião é a evidência dos outros quando se opõe à minha quando, na tradição de outros filósofos lingrinhas, olho o estado a partir do abuso da força, não do benefício da maioria. Os grandes opinadores são raros e lamentam a sua íntegra fraqueza. Não têm certezas sólidas em relação à fertilização extrauterina que é um detalhe genético como a cor das rosas ou a qualidade do poema com que a fêmea responde aceitando a corte do pavão demasiado emplumado. Muitos ambientes humanos tornaram-se demasiado barrocos, sobre-receptivos a uma humanidade enfraquecida. Certas mães, demasiado protetoras roubam, às escondidas os rebuçados dos filhos e as consequências destes padrões educacionais de inspiração freudista poderão dar lugar às futuras guerras das estrelas. Agora começo a perceber melhor o estatuto das minhas opiniões: é preciso desmontar as opiniões para que elas se afastem das certezas e pareçam verdadeiras opiniões sorrindo umas para as outras.