Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a poesia na ONU

Uma assembleia geral das Nações Unidas dedicada à poesia defendeu que ela deveria restaurar a sua antiga credibilidade. Os delegados afirmaram caber aos poetas essa incumbência, a de lhe descobrir um lugar depois de terem passado o último século a miná-la com os seus artifícios sintáticos. Levaram-na ao desespero, tornaram-na impossível de declamar com charadas semânticas labirínticas. Por vezes, os poetas queriam-nos fazer pensar, queriam que pensássemos as coisas ao contrário da evidência e concluíssemos pelo plausível e por uma verdade que o poema restringia a um inútil modo idiossincrático. Queriam deslumbrar-nos com as suas paisagens quânticas inimagináveis, as vírgulas e os pontos lutando contra a interpretação como foguetões descomandados. Hoje, pode-se ser um bom poeta de muitas maneiras (e pode-se arruinar uma excelente poesia se o poeta comete erros de marketing), portanto, mais vale deixar os bons poetas nos seus guetos académicos ou dando lições de escrita criativa a outros poetas menos bons pois as suas ideias para o mundo são excelentes. A ONU interessa-se pela poesia porque se interessa pela boa comunicação entre as nações, interessa-lhe refinar a linguagem, estudar os seus confinamentos, extrair dos seus pauis os corpos lentos da amnésia. Sobretudo interessa-lhe conhecer como uma linguagem que tanto se depurou pôde ser inutilizada, como um discurso que se pretendia purificado e isento se tornou impenetrável e aborrecido, como se tornou preterido a favor de formas de beleza virtuais, mas que envolvem as pessoas num jogo explícito por conceitos que conhecem bem como: 1) a acumulação de vidas (uma resistência à morte em versão desmedicalizada) ou, 2) de moedas de ouro (paradigma de todas as coisas acumuláveis) ou, 3) de poder graças a uma industriosidade omnipotente (capaz de montar civilizações futuristas ou de gerir as finanças de um país) ou, 4) uma qualquer medida de sucesso em geral (objetivada, por exemplo, no número de adversários mortos). Já foram semelhantes as propostas da poesia, a mesma exaltação numa eternidade de virtuosos, a mesma euforia numa terra de espantos opíparos, o mesmo enaltecimento de mortíferos heroísmos com menção dos extensos territórios conquistados e dos exércitos dizimados. Mas como pode uma poesia retomar a sua antiga performatividade quando o presente hipertrofiado obnubila o futuro e a eternidade é um conceito obtuso?, quando a noção de virtuoso se submete a um pragmatismo totalitário?, quando um sofisticado tecnonanismo ocupa o tempo dos grandes sentimentos e as grandes paixões?, quando a pátria é um fornecedor de serviços que nos trata como consumidores fáceis de enganar? O poeta não é capaz de concluir não haver lugar para ele, que continuará à margem, enfezado, excêntrico. Quando na assembleia geral das Nações Unidas lhe dão a palavra, gagueja com as vírgulas atropelando as esdrúxulas como se não compreendesse a linguagem fora do poema.

roupas encardidas

Agarramo-nos ao nome como ao vestuário encardido: «Dizes pudor? Descoroaste as divindades e julgas espreitar mais claro cerrado no submarino da infância; as consoantes do ser dominam a transparência. Responde-te um judo feminino, ora aquário ora tenda de circo, e a mente refaz-se. É outra linguagem, um templo recuperado da época das pobres instrumentalidades sensório-motoras. Também nunca conseguirias estabelecer-te no sentido transcendente do poema. Uma prece surda murmura em nós, uma falta de fé no mecanismo de acreditar. Cada verso absorve o pó dos precedentes ao cristalizar – esse alpinismo de coalescências e irisações transporta-nos à clarividência do moribundo, estrondoso diamante de distorções, com zonas opacas e outras de clivagem, num cântico sincrético que não se eleva com o fumo das oferendas. Aqui, «sincrético» significa mais que uma luz perdida, significa os disparos da mente quando as formas se iluminam e a luz encaixa nos cristais da mente. Uma hipótese forte afirma-se como uma verdade se veste e nos protege. Apesar de encardida, a civilização resume-se nessa peça de roupa e ao sujo que se deposita, metáfora de um nome cuja vagina esconde, cujo peito sugere voar numa cegonha que passa com a demografia a reboque. Interpelas-me como se te tivesses gerado e ao mundo. Preciso do teu pudor para que as palavras não se desmanchem, preciso que no poema encontres o teu desespero e o vomites, que encontres uma terra que não visitaste e a imagines existir generosa numa filosofia ou numa ilha. Preciso da parcimónia e da humildade do teu poema mudo, do sincretismo da mitologia que te faz sorrir porque nos tocámos sem pertencer senão à noção abstrata de força. A gravidade humana atrai as palavras mais densas; a tua colho-a da lágrima ao sorrires. Num poema, estares só ou estar tudo é igual: na linguagem ecoa a mesma cicatriz de um antigo navegar. As estrelas começam a aparecer, a dirigir o caminho, algumas não existem, mas seguimo-las embora sujem a compreensão do firmamento».

o que fazer quando o poema acaba

Quando conseguir concluir o poema, embarcarei para a Índia e por lá ficarei ou noutro país onde seja impossível triunfar. Um poema contém uma micro-solução com exigências próprias quanto ao futuro: é preciso que os odores das ruas sejam penetrantes e libertos de passado para que, ávido de tédio, me procure sem saber para onde irei ou o que ando a fazer a exemplo da linguagem que penetra o poema. Pelo contrário, há cidades que são a joalharia de materiais etéreos, onde as palavras que são sangue e custam a encurvar jazem no magma da mente como direções de avenidas ilusórias. Deparo com elas em becos de urinar ou de silêncios furtivos e, quando chegam à boca, cuspo-as. Sem nojo ou menosprezo; são momentos em que as palavras desembarcam em pleno oceano e se afundam logo. No fundo de uma voz encontro o mar e o fogo, sim, mitos, lastro impossível de pesar. Para mim que preciso de viajar, de comparar cidades recentes com lugares onde tempo e ideias há três mil anos pararam, retornar significa cumprir um rito de omissão de sentido como quando as pessoas chamam a polícia e confessam crimes não cometidos só por serem possíveis. Não se pode permanecer numa cidade antiga se nos perdermos no seu enrugamento, se nos embasbacamos na sua corporalidade, se o turvamento nos vicia. Concentramo-nos no seu ressonar tumultuoso, observamos o lado para onde acorda, da mesma forma que os subterfúgios estremunhados do poema. O que os ratos dos esgotos transportam em qualquer cidade é uma cultura atravessada de sintomas, partilhada por todos e pelos anjos, uma espécie de doença do existir que se manifesta demasiado tarde. A esta enorme plateia perguntamos o que falha com indisfarçável desejo que falhe.

de quantas dimensões precisamos para descrever o que se passa?

Penso que é importante quando falamos do que acontece, falarmos do tempo. É um conceito fugidio e podemos ser tentados a prescindir dele. Em muitos poemas, tal como na escrita aforística ou lapidar, o dito sustém-se sem especificarmos quando foi escrito. Supomos que certas proposições têm uma consistência de mármore e, como estátuas (ou como fotografias), a sua leitura passa-se como um gargalhada, ou como um deslumbramento, ou como uma vulgar evidência – instantânea e fixa. O que acontece difere do que é e do que está – que ainda não é completamente e o que venha a ser poderá ser diverso do que agora pensamos que será, e são estas tergiversações do ser que dizemos acontecer no fio do tempo. O que é ou está define-se num referencial tridimensional local – tudo estático, até nós que, como qualquer poeta não lírico, não subjetivamos o que dizemos. Gostaríamos de o dizer num único derramamento de palavras, todos os instrumentos de uma orquestra sinfónica tocando o mesmo trecho num curto instante. Antes e depois, silêncio. Esse silêncio anterior e posterior aos acordes é o tempo; um intervalo a ser preenchido pelo que acontece, mas todos os acordes num mesmo tempo não fazem a sinfonia que estamos habituados a ouvir embora sejam a sinfonia.

daqui para a frente

Todas as pessoas com mentes intertextuais no sentido pós-moderno tal como os livros são plágios à imagem da originalidade das pessoas. Cada uma absorve restos do noticiário, troços do último sonho, mandamentos da catequese e das aulas de educação sexual. É o que alimenta um fluxo, por vezes atroz, de um glaciar para a câmara obscura onde impera uma frágil luminosidade. Não percebemos a matéria deste real que supera os cenários da evidência: no cimo do monte, o pequeno espetador da imaginação com o seu ecrã-altar-de-catedral, vê as pessoas desfilarem como se apresentassem modelos de vida. Algumas reencontramo-las já anestesiadas no bloco operatório, outras com as agulhas da acupunctura exploram o limite da insensibilidade, ainda outras passeiam entre miniaturas chinesas num jardim artificial e é provável que os mecanismos falhem ao fim de pouco tempo. É preciso considerar hipóteses arrevesadas, mesmo utilizar recursos químicos insólitos para que as coordenadas se ajustem numa dança de pianos e locomotivas. Tenta-se vencer a própria definição de geometria: pautas e carris eliminarem o seu rigor paralelo fazendo prevalecer o desejo sobre um ordenamento do mundo baseado na fixidez do espaço. Todos queremos a perfeição de uma semente de araucária como se cada momento das nossas vidas se dispusesse numa peregrinação entre uma surpreendente picada de melga e um astro-rei donde a luz vem e, aparentemente, nos vivifica. Assim, cada passo ora cumpre um destino ora, como um texto se rebela, procura levar mais à frente uma carga poética que não toca o essencial. Como serão os ócios da humanidade com as unidades de prazer escrupulosamente contabilizadas e competindo entre si? As pessoas precisarão de estímulos dolorosos especiais que lhes avivem os contrastes de um perpétuo êxtase. Assim, estáticas, viverão a metamorfose do tempo moldando as emoções com uma ampla farmacopeia. Por isso, um poeta que tenha passado a vida a escrever sobre a perfeição nunca mais será lido, os livros apenas tratam das incidências do absoluto. Os arco-íris da poesia serão recebidos de olhos fechados com a comoção doseada e taxada como artigo de luxo.

rubaiyat

Podemos definir um grande poeta como alguém que nos encanta falando de qualquer assunto sem o conhecer. À volta da sua música podem dispor-se as outras coisas, as que conhecemos e as que apenas usamos sem pensar, como a lua que aparece grandiosa e torna sub-reptício o discurso das coisas. Ela molda o nosso cérebro para que a poesia nos convença, nos embale, nos leve para algum lado ou nos dê a ilusão de que esse lugar existe. Porque o nosso cérebro tanto quer conhecer as coisas de que fala o grande poeta, como quer enaltecê-las por serem enigmáticas, ou lamentá-las por passarem no fundo do palco e influenciar-nos o seu desespero. Não é que desesperem as coisas efémeras, mas transmitem-nos as impossibilidades de que não gostamos de ouvir falar: o tempo quando se estreita, quando já só falta um instante e depois acaba o que existiu e não chegámos a compreender. É como alguns poetas falam da vida: compreenderam que a vida se pode encurtar e manter todo o sentido porque não é o sentido que dá extensão à vida, mas um poema que, quer se perca na sua extensão quer se feche misteriosamente em poucos versos, nos faz pensar na vida e no sentido e em todas as coisas que desconhecemos, mesmo nas que ignoramos desconhecer. Por isto, quando lemos um grande poeta, podemos desistir de o ler e preferir fazer o que ele não fez que é estudar as coisas de que falou sem conhecer. Mas, embora poucos, alguns grandes poetas procuraram conhecer tudo o que era possível conhecer e deixaram o resto em versos que, por serem belos, nos ensinam a lidar com o que desconhecemos em nós, em dar sentido ao amor, a, finalmente, beber um copo de vinho e adormecer com o contentamento indefinido que a poesia proporciona.

novos formatos poéticos

Num tratado sobre as novas formas das árvores que critério deve prevalecer? O da sombra ou o da extensão da copa?, e, neste caso, privilegiamos as copas que se espraiam como as dos embondeiros ou as que se alteiam como ciprestes que parecem convictos de alguma coisa se passar lá na altitude? Porque quando dizemos sombra refundamos a questão nos humanos que nela se abrigam e nas aves que as conhecem pelo hálito e pelo abraço terno tão diferente do envolvimento no vento cuja muda loquacidade apenas nos faz ajeitar o chapéu. Os seres vivos começaram por todos terem as mesmas necessidades e configurarem-se a partir de uma plataforma de exigências que a vida faz ao meio, a qual, a não ser satisfeita, a matéria viva descomplexifica-se. Podemos dizer que os elementos perdem as virtudes gregárias, deixam de se pensar no sentido da consciência de estarem envolvidos num propósito o qual os obriga a delegarem a sua primitiva individualidade celular (ou de órgão, no nível acima) em sistemas de decisão abstratos com os quais apenas por medo cooperam. No que respeita às árvores, a sua organização vertical estabelece níveis, quase homólogos aos da filosofia, desde o maior arejamento de um corpo reticulado ou entrançado e ramificado, donde alguns conceitos chegam a soltar-se ao ar, e acabam por viajar apenas sustentados pela própria leveza relativa. Também, como na filosofia, existe um nível intermédio que agarra ao solo um mundo de coisas estudadas do alto: um tronco, uma zona de energia materializada para resistir, congregar e resistir às pragas de escaravelhos, às inundações, à escuridão, à maior parte dos cataclismos, mas a sua aparente robustez cega-nos para um chilrear de símbolos muito nítidos e coesos com os seus corações latejando e empurrando para cima um maná, por vezes seco e intragável. As melhores ideias perdem-se fora da escrita. São árvores desenraizadas, são versos longos que se soltam e recompõem, são vento que se perde no mar ou num céu sem nuvens. As novas formas das árvores servem as novas formas de poesia, não pela novidade pois se as modas convêm à poesia, às árvores são-lhes indiferentes, mas pela oposição a uma natureza que as trai: solos contaminados, atmosfera carregada de detritos químicos, chuvas inopinadas e poluídas. Não deveria a natureza proteger as árvores como as sociedades dos direitos dos animais os protegem dos seus donos? Não deveria a natureza imunizar o planeta das espécies daninhas?, sabotar-lhes os foguetões que carregam bombas e permitir aos que querem outra galáxia ultrapassarem a velocidade da luz? Porque tal como as árvores se retorcem e miniaturizam como bonsais, mas não conseguem germinar nos solos impermeabilizados da civilização ainda que com novas formas, também, para alguns poetas, a poesia se reduziu a uma interjeição onde coube uma estupefação enfim resolvida. Ou uma estupefação que enraizou e modificou a forma da árvore, talvez um poema simplificado, uma sintaxe simplificada, um novo vocabulário para dizer as coisas imensas que antes pareciam indeterminadas e difíceis de amar.