Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a alma amordaçada do escritor

«É dentro de mim que o inseto cresce e me aterroriza. Fujo da minha malignidade, fujo da memória de um susto, tremo e tropeço na memória doutro susto anterior. Não é medo pois não quero fugir de mais nada. Quero a escrita que é a única ação eficaz, as suas frases curtas sossegam premonições muito antigas que não consigo afastar nem acreditar o suficiente. Há momentos em que nem a literatura existe». Nada existe de específico na loucura – é apenas mais uma forma de sofrimento, mas também não é defensável uma natureza sagrada para tal abismo no miolo da mente. Freud tentou mapear o labirinto da consciência ao descrever as zonas mudas donde toda a ação resulta em crime. Esta compreensão da loucura afetava mais a normalidade do que os eventuais excêntricos bem acomodados nos seus nichos literários e artísticos – ou prisionais, nalguns casos. Nem toda a ação é legítima, nem toda a ação legítima merece ser executada, e, de entre as executadas, poucas valem a pena ser mencionadas. A ação é subterrânea e aterrorizadora. Podemos fugir, mas não escapamos da própria malignidade. Já não nos assusta, deixa-nos desconfortáveis, mas não assustados, fugimos como se passeássemos pela trela um cão desconhecido. Disfarçamo-nos à imagem cinematográfica do espião de óculos escuros atrás de um jornal. Entre tantas personagens com razões sensatas, as nossas são igualmente triviais, mas inoportunas. «Dentro de mim não existe desejo». O desejo é um touro solto no meio da avenida, é mar dentro de um pacote de leite. «O desejo passa por mim com uma caligrafia de vagas. Os dedos da mão, touros mortos no espetáculo da conformidade. O poema cifra o voo do inseto. A consciência surge apenas no momento da picada. Coço complexos inverificáveis, coço o susto de pensamentos hiperpoderosos, coço a ignorância dos seus descomandos». Na alma dos escritores nunca sabemos o que vamos encontrar.