Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A ATMOSFERA DAS CIDADES  

Podemos defender que, num sistema, as circunstâncias se repetem. Podemos pensar que, devido às inclinações dos seus elementos, se sujeitos às mesmas forças, estes se reconfiguram num formato já visto como se houvesse uma memória que ora sonha ora executa – como a memória de um demente que ora consegue regressar a casa com a sopa para o jantar ora se perde e vagueia pelas ruas até ser encontrado pela polícia e asilado onde acabará por morrer meses após. Portanto, também defendemos que as circunstâncias não se repetem, como foi o caso deste desgraçado a quem a misericórdia social cuidando matou. Mas não é pensando o destino que construímos a filosofia da ordem nem é pensando o caos que encontramos Deus gerindo-o segundo as suas inconfessáveis conveniências. Por isso, tanto podemos defender que o tempo envelhece os elementos tornando-os diferentes ou, até, coisas diferentes cada dia, como pensando cada dia e nos dias anteriores, pensamos nos dias que se seguirão, nos invernos que se seguirão, na época que se seguirá à atual época das transações virtuais e chegamos, talvez, a concluir ser inútil pensar que as circunstâncias se possam repetir pois a realidade confunde-se com o seu modelo e este é totalmente controlado por um sistema que se autonomizou da humanidade e dos seus tiranos. Assim, pode ser que a realidade exista (e se repita ou não se repita), mas o seu modelo é uma configuração muito mais sólida e indiscutível e independente das nossas mentes – uma atmosfera de ideias tão necessárias como o oxigénio e tão poluída como a atmosfera das cidades.