Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a boa educação

«Parabéns» é um expressão protocolar convivial. Mesmo em família não explicita nenhum concreto desejo de felicidade nem de sucesso. As noções de felicidade e de sucesso podem não ser partilhadas entre o emissor de «parabéns» e o receptor, mas as felicitações de «parabéns» referem seja a uma conjugação de fatores exteriores relativos a outros intervenientes seja a fatores imponderáveis interatuando num jogo de forças complexo. No segundo aniversário de uma criança os parabéns ainda vão para os pais. Representam a mãe-natureza que lhes juntou os gâmetas e opera o desenvolvimento da criança. Esta cresce, anda, faz algumas asneiras a que os pais já não acham tanta graça, balbucia algumas palavras com uma pertinência única. Na verdade nunca mais a linguagem será tomada com esta seriedade próxima dos urros e verbigerações dos caçadores primitivos a que hoje não atribuímos qualquer respeitabilidade. «Parabéns» é uma expressão equivalente no sentido de comunicar um desejo inexplícito que varia entre o nada desejar de mau, mas em que o bem da pessoa parabenizada é indiferente, até um desejo indefinido de que a caçada seja profícua e resolva não só a fome individual, mas a da tribo. Contudo, quando os parabéns são enquadrados num «Desejo-lhe os meus mais sinceros parabéns e que esta ocasião se repita na companhia dos seus entes mais queridos por muitos e bons anos.» devemos desconfiar um pouco de tamanhos votos. Na verdade, embora desejar nada custe, isso não significa que ao desejo enunciado corresponda um sentimento e, se forem só palavras, estamos perante uma mistificação de uma declaração afetiva que nos perturba o que sentimos pelo outro. «O que quer ele de mim?» ou «Porque quer ele que eu acredite que me ama?» ou até «Como poderá ele saber se os melhores momentos da minha vida não são na solidão dos meus devaneios, longe da inevitável conflituosidade da família?». Deveríamos abusar das expressões protocolares conviviais tentando levá-las ao limite de as sentir. Deveríamos compenetrarmo-nos de que qualquer vínculo pode ser melhorado, mas, correlativamente, de que, por vezes, nos envolvemos com pessoas que nunca trarão nada de bom nem nunca conseguiremos fazer juntos nada de positivo. Nesses casos não responder à expressão protocolar é a forma de cortar com tal convívio nocivo, mas dirão que não somos bem educados.