Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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A CIÊNCIA DO CONSELHO  

É difícil escapar ao ridículo quando damos conselhos. Não tanto pela pose majestosa que adotamos, envelhecida pela experiência, mas a própria arquitetura dos argumentos pretensiosamente assente num ego obeso e paternal que se pessoaliza para ter razão. Trata-se de uma enorme falta de respeito dar conselhos, maior do que os vender. Dar conselhos supõe uma sobrevalorização da nossa capacidade de ter razão face à pessoa que os recebe que é tomada como deambulando pelo mundo, estupefacta ou repetindo os mesmos erros, em risco de se tornar miserável, ou de se suicidar por incoercíveis fracassos amorosos, ou de abrir falência e só nos restar levá-lo à sopa dos pobres e a um albergue para que o cuidem. Não lhe reconhecemos jogo de cintura para dar a volta à situação como se o estado em que o encontrámos equivalesse ao estado terminal de um tumor maligno, ele repleto de metástases e, portanto, comer ou não comer, dormir ou não dormir, abrigar-se e proteger-se ou continuar deambulando como um perdido pelas ruas fosse indiferente para o seu terrível destino. Por isso, a nossa voz se adoça à medida que se torna peremptório o que lhe dizemos: desvalorizamos a sua contra-argumentação, apenas repetimos: «Fizeste mal. Ouve o que eu te digo. Eu é que sei, já passei por isso e vê como, ao contrário de ti, tudo me corre bem». Se ele aproveita para nos pedir ajuda concreta, já temos preparado: «Tens que sair disto por ti. Criaste a situação, tens que a resolver sozinho». E, com uma pancada nas costas ao modo de despedida, insistimos: «Faz o que te digo». Não importa se ele nos passa a odiar ou a desprezar-nos, seguramente que não nos estima e que o deixámos mais desesperado com a crueldade da humanidade. O que é grotesco é a disparidade entre a pose de um triunfador e a de um derrotado. O que é notável é como a presença de um derrotado cria em nós o triunfador e este papel nos obriga ao ridículo e à prepotência. Os aconselhadores profissionais servem os seus conselhos sem o nosso falso altruísmo ridículo. É uma ciência esse modo de vida.