Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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A CONSCIÊNCIA POLÍTICA    

Tudo acontece de uma forma naturalmente desprogramada. O coração atinge as cem pulsações por minuto – nisso que sinto ausenta-se o guardador das sensações com o cortejo das divindades por trás do piloto automático. Pertenço ao sistema. O «isto é para rir», o «decorre da fé», o «chora agora», o «decorre da linguagem» decorrem da linguagem, decorrem da fé e decorrem de um espectro instável, mas a respiração de mim em mim controlo-a como um golfinho preso ao seu cântico solto ao mar. Palavras a reboque das memórias mudam rapidamente de personagem, sou o títere de mim, o sopro dos poetas que me cruzam, sou o mel das suas baladas, o eu em angústia de influenciamento, tímido perante as musas de Hesíodo, títere de quem? Títere dos plágios transversos coletados numa linguagem branca. Os poetas aceitam qualquer paisagem, mas muitos estão distraídos, a sociedade enerva-os, o amor nunca sabem com quantas pedras é feito. Na escuridão não há uma só forma de fazer teatro. Como acreditar num filósofo se ele procura, também?, se o que das suas palavras enraíza lhe escapa, como a mim, para o grande ecrã do incaraterístico? As razões possíveis traçam um bordado de mímicas onde o vidro se opacifica e sou eu de novo, a face solúvel do deus da indulgência, o grande cínico das sentenças de morte adiadas por uma declaração de amor soprada pelo buraco da fechadura. Nesta fase, demonstrar a exequibilidade de alumiar a noite, espalhar archotes em cada fonte, recitar as parangonas da vida e da eternidade até à primeira exaustão. Trata-se da dialética materialista provar não haver limite nítido para a exaustão. Com consciência política sorrio às pessoas mais prósperas e sorrio, também, às outras. Já não se percebe a quem pertence isto nem que interesses cada um defende, as únicas certezas são os batimentos cardíacos e o pouco que o corpo se dá a conhecer.