Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A ENTREVISTA DO POETA  

Hoje, poucos se comovem com a pieguice do poeta. O seu vazio (o vácuo das lágrimas) ainda resplandece ao amanhecer (ficção de uma glória inócua) para os que o acompanharam, bêbedos (o que não fizeram acontecer) e procurando o melhor caminho com o seu excesso de imagens pouco surpreendentes. Em qualquer caso, poucos o seguem (ao que serve a poesia?). Poucos cabem no seu «nós» que é uma primeira pessoa majestática, mas ninguém acredita na sua solidão, nem na sua hombridade, nem na amizade pelo parceiro com quem se embebedou. Defende-se na entrevista para o jornal de literatura dizendo que a mãe é uma figura mítica com um polo irreconhecível (uma Vénus reformada ou que é preciso idealizar) e outro em que as palavras trocam as cores e os momentos do brilho (o significado como ápice), que sempre esperou ir mais além o que fez dele um apressado jogador, amedrontado em cada lance que é como fala do amor. Ele gostaria que o acreditassem, gostaria de mansamente persuadir, gostaria que o tomassem não por um sonhador, mas por um visionário e que a sua voz saísse profunda como a de um oráculo. Hoje, ninguém reconhece a voz do oráculo. Soa estranha, bafienta; os augúrios são má literatura, os conselhos, uma catarse, todo o seu livro é uma catarse orientada por uma psicologia brejeira: que a água está inquinada e sabe mal, que come como um neandertal, que o tempo perdeu a cadência, que as tempestades o assustam, que o mar é feio, que as flores são efémeras como as nuvens, que as nuvens são seres enigmáticos como um poeta carregado de pedras (a fala e a escrita, diferentes distorções ou, como a noite falha, a pedra fratura). Antes o poeta deveria evitar a palavra «absurdo» para que as suas imagens do absurdo funcionassem, para que tivéssemos uma simpatia mínima pela sua dor, a indispensável para continuar a ler as minuciosas descrições do que transborda do poço para onde escorre não apenas o seu lixo, mas o da sua amante família, o dos seus furibundos mestres, o arfar das amantes cantarolando o hino do aborrecimento. Que não é só a linguagem, mas um impensado, por vezes assustador – que é cansativo transportar para a poesia. Acreditamos na sua sinceridade, mas não é o que queremos dele, nem o seu deserto, nem a energia morta do deserto, nem a energia do seu corpo que é mera metáfora. Também não o quereríamos hercúleo, palavras posando num concurso, apenas a alegria das coisas na sua justa medida.