Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a escala em arquitetura

 

Enquanto uma vaca ou uma truta, quanto maiores melhor (mais proteínas), um homem com mais de um metro e noventa é uma despropositada expressão atávica (acabada a antropofagia). Pelo contrário, as árvores antes de atingirem trinta metros são lápides funerárias ao lado das pirâmides de Gizé. Olhamo-las como às alfaces crescendo, mas dispomo-nos a esperar trinta anos antes de as reverenciar como catedrais da natureza. Albergam-nos já não como sombra, mas como mundo, como meio de prova de que da materialidade do solo se estabelecem relações submersas que podem chegar às nuvens e captar os eflúvios da imaterialidade de que alguns poemas são feitos. Pois as imagens pesam e nem sempre encaminham para o inexprimível o sentido das palavras. São poemas que se separaram há muito do seu conforto; fazem, agora, o seu caminho com a mochila às costas como se não tivessem direção nem propósito, mas são como as grandes árvores, profundamente enraizados num conhecimento das coisas submerso. Como o rumo ou a escala de um país. Em Portugal, só o convento de Mafra escapa à sensata proporcionalidade referida ao humano. Começou por ser planeado para treze frades franciscanos e acabou por albergar trezentos. Os aposentos do rei distam mais de duzentos metros dos da rainha. Em Espanha, as construções, públicas ou privadas, refletem a grandiosidade imperial inexistente aqui. Como explicar esta parcimónia senão pela deficiente administração um pouco corrupta e desorganizada e não num humanismo arquitectónico de vistas largas. Onde, na Índia, a escala cresce as igrejas tornam-se desconjuntadas como um humano de dois metros, grandes, mas não monumentais, homem gigante, mas repelente a sua estatura tal como nos afastaríamos um pouco de um dinossauro para que não nos perturbasse. Portanto, concluímos, o dinossauro tem a sua própria escala, enquanto a estatura do homem, ou do convento de Mafra, ou das igrejas de Goa, ou o peso dos animais domésticos, ou a arquitetura portuguesa em geral tem a escala do humano, enquanto em Espanha a arquitetura tem a escala do império.