Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a escrita como veneno (citando Derrida)

Os sumérios inventaram a escrita para a contabilidade agrícola e para a administração do reino. Foi há mais de 5000 anos. Mais tarde acharam que algumas memórias mereciam ser guardadas num formato poético fácil de musicar. Ainda hoje lemos esses cânticos, os salmos hebraicos, a epopeia de Gilgamesh, o Livro dos Mortos. Imaginamos o poder dos escribas e o dos escritores, o poder de lidar com a memória, de fornecer uma matriz a partir da qual a obediência e a submissão estabilizam – à volta de quem escreve. A mensagem escrita comanda. Vinda de Deus ou de quem detenha o poder; o poder sedimenta na escrita. É um contrassenso desvalorizar a escrita como forma de transmissão de mensagens apenas porque «pharmakon» no grego de Platão tanto significa veneno como remédio. É uma evidência histórica que a escrita transmite o poder, que a glória precisa da escrita, que a história veicula a versão do escritor, a versão do poder. Posto isto, justificar-se-á afirmar um relativismo que subordina a realidade à sua versão narrativa apenas para depois a desconjuntar e a submeter aos desvarios literários de qualquer intérprete? Não será idiota defender que qualquer interpretação tem o mesmo grau de legitimidade, a do falsário e a da testemunha, a do perito e a do apenas conversador? Após estes 5000 anos de escrita, poderemos sustentar que a significação é contextual quando os contextos da leitura tanto mudaram? Ignoramos a que se deve a prevalência atual desta cultura da incredibilidade, desta metafísica negativa, desta teologia da dúvida. A democracia e a civilidade não tem que ser justificadas por uma sociologia da mediocridade – antes de qualquer sistema de governação está a cooperação e a solidariedade que não supõem a autoindulgência filosófica, a autorreferencialidade e a referencialidade de um cego guiado por um cão também cego que segue outro igualmente cego e outro e outro ainda e quando conseguimos chegar ao primeiro cão verificamos que ele anda a volta simplesmente para se estontear. Não foi para isso que os sumérios inventaram a escrita (e os gregos, a filosofia).