Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a falta de saúde

Quando nos dizem que falta alguma coisa para o corpo bem funcionar, alarmamo-nos. Seja mais sangue, mais inteligência, mais insulina, mais calma, seja o que for que nos falte e esteja além da nossa ação. Que, portanto, não é como a cultura, a amizade, a magreza ou a virtude, que podemos cultivar e nos responsabilizamos se falta, mas isto que falta alarma-nos porque conhecemos a coisa que falta apenas pelos efeitos da falta. Depois, dizem-nos o que devemos fazer e percebemos a complexidade do universo manifestar-se em todas as escalas: ao nível de um planeta em cuja atmosfera o oxigénio escasseia e no indivíduo que respira com dificuldade e pouco oxigénio chega ao cérebro; ou numa gravidez que aborta; ou numa estrela que arrefece e, num seu planeta, a vida que estava num estado embrionário, provavelmente não conseguirá continuar a desenvolver-se. Esta ideia de desenvolvimento e progresso está latente na nossa ideia de vida e, por isso, faltar alguma coisa ao corpo de uma forma inexorável põe em causa a dinâmica do universo: as matérias que se querem expandir no núcleo do planeta irromperem na sua crosta em milhões de vulcões simultâneos como uma varicela ou como se os órgãos se extrudissem pelos poros como por uma tremenda hipertensão interna e, do avesso, o planeta degenerasse. Ainda pior seria os planetas desorganizarem as suas órbitas e colapsarem uns nos outros e, depois, na sua estrela-mãe; esta, noutra estrela e noutra, e noutra, e o universo, em vez de se expandir, regressasse à dimensão de um ponto que não tem dimensões e, sem dimensões o espaço não existindo, assim, o ponto, tendo perdido a sua localização, também não existe: o universo teria regressado ao nada. É o mal absoluto que esperamos nunca atingir, apenas tentamos compreender o mal ou a doença a partir de noções básicas como a sua origem e para onde nos arrastará. Perguntamos se o mal é genético. Claro que queremos desculpar-nos atirando com as causas para algum momento de um passado como se expiássemos uma culpa e, deste modo, ilibamos a nossa vontade de normalidade; ou perguntamos se fomos contagiados por um agente anacrónico (no sentido em que nos excluirá da escala do tempo); ou por uma entidade enigmática contra a qual é impossível lutar (um cancro, um espírito) e mais vale dedicarmo-nos às medicinas alternativas.