Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A FAVOR OU CONTRA  

Gosto de permanecer sentado à espera num consultório médico com mais algumas pessoas. Estamos todos vivos e, enquanto esperamos, nada de especial nos acontecerá – e se acontecer, esperamos que nos salvem. Ouço tentarem animar um debate sobre educação sexual para pré-adolescentes incidindo na questão do aborto. Há pessoas enervadas com o estado por este levar o seu histrionismo eleitoral ao ponto de se imiscuir na intimidade da família. Tento manter-me imparcial quanto à retórica, mas concordo que o estado parece julgar ineptas as pessoas, trata-las como ratos de laboratório, ou, neste caso, insinua que as mães exageram as restrições que impõem às filhas. Parece querer que estas facilitem um pouco mais a aproximação dos rapazitos que aos 12-13 anos precisam de sentir apreciadas as suas desajeitadas malandrices para que venham, no futuro, a ser progenitores de bons europeus nascidos de pais muito jovens em relações precárias. Se esses projetos nupciais não encontrarem financiamento junto dos pais ou do estado ou se a miudinha que engravidou o fez sem um cabal projeto nupcial negociado com o parceiro, então o estado apregoa que ela poderá contar com a curetagem estatal para remover o azarado embrião intruso. Tudo continua, depois, como antes e não se fala mais em abortos nem em sexo fora das aulas de educação sexual. O ministério argumenta que as famílias não falam de aborto; que falam de futebol, falam de impostos, falam da vizinhança e da política sempre de uma forma maniqueísta. Que falam da desobediência, numa lógica hierárquica absolutista, e da desobediência sexual, mas não falam do aborto que é uma prática cruenta a que ninguém pretende recorrer. A não ser que não haja alternativa. Somos todos contra, mas é um recurso limite (e são frequentes as situações limite), por isso o estado o menciona nas aulas de educação sexual a par das outras banalidades sobre amor e sexo. O resto é a vida que ensina, ou nunca chegamos a descobrir.