Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a inspiração

Antes de começar a escrever, um escritor esquece o mundo, faz-se um tipo especial de terráqueo preparado para um universalismo benigno que não está suficientemente definido. Por vezes não atinge esse estado: varre os aspetos do mundo recém-chegados, justapõem-nos, ensaia combinações como se uns tornassem os outros aceitáveis, relaciona-os com as coisas que julga solidamente saber do mundo e as coisas parecem-lhe razoavelmente estabilizadas, até os conflitos com a sua evolução susceptível de várias versões, as eleições que se sucedem sem grande impacto imediato, alguns recordes que continuam a ser batidos, e tenta concluir que o mundo passa melhor. Podemos sempre ironizar com os habituais paradoxos e não faltam casos individuais de pessoas asquerosas, indignas, ou, simplesmente, impertinentes que podemos ridicularizar como uma guerra atómica desencadeada por um presidente que se embebedou no dia do seu aniversário junto com o seu estado-maior. Depois conseguimos alinhar algumas razões para justificar o acontecido. A maior parte da literatura refere a conjunturas que nos interpelam e lamentamos não saber calcular o risco de se realizarem. Como impedir o presidente de se embebedar? Merecerão os seus inimigos este circunstancial extermínio? Resistimos a ver o problema pelo lado dos exterminados; já não pertencem à história. As vítimas não são bem tratadas pela história; a má consciência leva-nos a disparates monumentais como um obelisco no meio da praça com os seus nomes em minúsculas ilegíveis. Se precisasse de um tema para escrever, seria este diferente tratamento da morte entre as vítimas de um morticínio atómico e a morte de um estadista que nos habituámos a ver no noticiário e que é sepultado como um faraó. Tudo o que se diga sobre os casos individuais de felicidade acaba por ser ofuscado pela ubiquidade universal da morte. É ela que elegemos como paradigma do absurdo e é ela que justifica a monotonia dos epitáfios: «Este viveu, agora partiu e deixou aqui o cadáver». Contudo, não parece difícil argumentar o absurdo da morte que é em tudo comparável ao absurdo do nascimento, embora com um significado biológico simétrico. É de tudo isto que um escritor se separa para começar a escrever.