Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a intimidade da cidade

Acabamos por nos enamorar pelos detalhes arquitetónicos da cidade vistos da janela do quarto. Não esquecemos o encanto do retículo de ruelas pelas encostas, os devaneios que se abrem no simples afagar das perspetivas pela nossa libido fadista. Sobretudo, claro, as avenidas, as praças, a proximidade do rio, a estatuária convencionalmente evocando heróis mais ou menos convincentes. Mas as cidades oferecem a sua intimidade aos voyeurs que as amam. As traseiras dos prédios têm janelas de frinchas sobre o telhado dos vizinhos, onde, ao longo do dia, vemos as mulheres assomar. Como num relógio de cuco, que é uma raridade mecânica. Assomam, provavelmente, sem nada para anunciar, até as horas estão desacertadas. Trata-se de um desafio à nudez, à interdição do corpo exposto como o de um mártir. Porque um corpo pesa, as suas formas exigem compostura e exibição. Imaginamos as pequenas arrecadações onde elas experimentam os seus vestidos antigos. Então constatam como o corpo mudou ao sabor de funções e não da sua identidade. A maternidade faz do corpo outra coisa de que não se recupera totalmente. Cozinham, provam; entediam-se, petiscam; cuidam, corrigem, mas sentem perdida a ocasião de seduzir como polícias em serviço num estádio de futebol. A cidade é feminina pelo arredondado dos seus argumentos, masculina pela claridade jovial da sua tristeza. A arquitetura das traseiras dos prédios, como rostos de uma pobreza envergonhada, sorri-nos. O olhar percorre os seus matizes desmaiados; é uma forma de combater a tristeza.