Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a justiça prática dos que a pensam

Muitos tratados de jurisprudência deviam começar declarando: «É bom ignorar», só depois construir um ambiente de justificações. Poucos o fazem. Pelo contrário, ostentam desde o início, não um conhecimento (porque ainda não o definiram), mas uma autoridade que, se como justificação satisfaz a maioria, para os que sorriem às coisas certas sem nada afirmar, esses defendem: «É preciso pensar as coisas desde o princípio, encontrar o primeiro erro, o que é impossível corrigir». Pois a jurisprudência segue a conveniência. Perguntam-lhe: «É respeitável esta justiça comum?» Ela responde: «Faz as perguntas corretas. Eu tenho a força, esta reveste-se de uma aparência de justiça que é respeitável porque possui a força. Os nossos primeiros erros distinguem-nos dos primeiros erros dos outros. Deves respeitar-me ainda que tenhas reservas quanto à minha bondade». É um argumento potente. Demove-nos de avançar contra a inércia de um gigante. Sim, é bom ignorar quando temos de recuar; quando percebemos os abismos que se avizinham e julgamos que ainda não adianta morrer por uma razão. Ela pode sempre responder: «E antes do primeiro erro, desse que pretendes corrigir, o que encontras?, maior perfeição?, uma justiça descontaminada da humanidade?, sonhas até com uma ordem que dispensa a própria justiça?». Há má-fé no argumento. É o aproveitamento da manha que apela à congregação: «Vem. Diz o que pensas pensando como nós. Levarás a tua adiante porque prescreves e possuis a sanção e em cada sentença tua sedimenta a inércia que acalma os virtuosos». Como resistir? Agora, é impossível ignorar. Haverá uma bondade impossível de concretizar, que nos levasse a estar na intimidade do mundo sentindo-lhe as risadas e os estremecimentos, mas estar por cima e acompanhar como uma mãe os primeiros passos do filho? Ou esta bondade silencia-nos, aparenta-nos aos que temem, aos que se entorpecem nos próprios sonhos, faz-nos cúmplices da jurisprudência que prefere ignorar ignorando o que ignora, antes, na sua pesporrência temerosa, prescrevendo uma versão do bem que nunca soube refletir.