Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A LIBERDADE DE CADA UM OU A LIBERDADE ELA MESMA?  

Hoje sabemos que o absoluto e o infinito não existem. A história da civilização é a história do absoluto no sentido de algo definitivamente não-precário, que se sustenha no vácuo das coisas contingentes e, por isto, que é nada, as lutas fratricidas, os extermínios e as «limpezas étnicas», os morticínios, por uma ideia de absoluto sempre insuficiente, ou local, que transforma o absoluto em razão moral para a devastação e respetivas promessas de ressurgimento, mas é a força e não a razão o que o sustém. Esta (a razão) poderia ser, bem pelo contrário, uma plataforma de entendimento para articular interesses sem recorrer à força. Temos visto a força ser utilizada com violência para impor o absoluto. Dizemos temer a força, mas levamo-la a um limite infinito e ao esmagamento. Ao contrário do absoluto, o infinito depende de todas as coisas que existem e carece de um bom argumento para convencer de que o seu número não tem fim; mas não causa guerras, apenas disputas académicas nos círculos eruditos que não tomam em conta que o cérebro já não precisa de infinito nem de absoluto. Foram construções da linguagem onde o cérebro foi levado, como um cego com o seu cão ou como um pintor barroco juntava elementos à sua representação para encontrar, por acumulação, uma ideia de beleza. Um deus absoluto não é melhor que outro que seja crucificado, sofra e morra, ou que os deuses gregos que ensinam a maldade, ou os hindus tão íntimos e bizarros, ou os astecas cruéis; todos com as suas terríveis perversões nem absolutas nem infinitas. Na verdade, os deuses ignoram o infinito, contentam-se nos seus domínios, repetindo as coisas que os satisfazem, mas nunca têm um prazer absoluto, nem uma felicidade apaixonada como os humanos. São estados que não lhes pertencem, as suas ações são eternas enquanto o prazer é momentâneo e se aborrece com a saciedade. Para que serve o infinito se a mente constrói as coisas entrelaçando-as?, umas mais centrais que outras num certo instante da nossa atenção, logo se escapam para o fundo ou escorregam para os alicerces que, às vezes também estremecem, mas nada é absoluto no sentido de a falta de uma coisa com a respetiva ideia fazer tombar o arranha-céus que, ainda assim, pode implodir, ser sabotado, vítima de um sismo, ou da colisão com um avião. Mas nem a imensidão é infinita, nem uma força extrema, verdadeiramente omnipotente, é absoluta, quanto mais não fosse porque choca na nossa ínfima liberdade de criar o destino à nossa maneira.