Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a libido

Ainda pouco se sabe do que determina a libido, não tanto isto ou aquilo que causa as suas respostas concretas, por vezes espalhafatosas, mas as coisas ou detalhes de coisas ou evocações de coisas que nos permitem escapar-lhe – uma libido excecional no sentido em que permite iludir o prazer, ignorar a sua genitalidade obsessiva e os seus prosaicos derivativos. Assim, a energia da libido deslocando-se para fora da libido liberta a pessoa para outros motivos, continuando, contudo, libido, uma libido franciscana, generosa, desapossada. Sendo o sexo uma razão tão potente e tão fundamental, que organiza a sociedade e a distribuição de pequenos pecúlios, como pode acontecer alguém decidir contra a libido, privilegiar outros atributos que não os que excitam o pénis, a vagina, os peitos, as hormonas tantas, e, assim, decidir a vida ou escolher o parceiro fora do que é natural? Acresce que, se o que é natural se soma ao que está estabelecido, como pode um enfezado estudante da biologia dos lepidópteros levar a melhor sobre um praticante laureado da modalidade de natação em mariposa? Da mesma forma, uma delicada filósofa cheia de lentes de contacto ser preferida em desfavor de uma voluptuosa demonstradora de roupa íntima? Podem-se multiplicar os casos, também em que pretendentes mais idosos ou menos abonados foram escolhidos deixando atrás a soberba pretensiosa dos jovens ricaços. Não estão feitos estudos suficientemente longos que confirmem se estes critérios alternativos conduzem a maior satisfação existencial, mas sabemos que o amor natural não está programado para grandes sacrifícios, nem para um altruísmo resiliente, nem para uma eternidade durável, donde o interesse de novos modelos de libido. Que novos mitos surgirão se não disputarmos a mãe nem derrotarmos o pai? Conseguirão estas libidos não-genitais exercer-se numa criatividade sobre o mundo? Estará o mundo preparado para tantos altruístas, para tanta virtude, para tanta bondade? Não será melhor mantermo-nos nas relações de interdependências arduamente negociadas, de microsofrimentos racionalizados, sublimados, denegados, somatizados, seja o que for, que nos permitem, estáveis, viver num surdo sofrimento familiar a favor da ordem social. A libido compete com a ordem social. Hoje, a ordem social está-se nas tintas para os sacrifícios dos cidadãos, deixa-os entregues à sua libertinagem mais ou menos contida. Casados ou divorciados desde que paguem impostos e sirvam o mercado que é onde se define o patriotismo, pois que o mercado não discrimina o formato da libido.