Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A LUCIDEZ  

Temos a sensação (intermitente) de haver questões verdadeiramente importantes que ignoramos ainda; vitais quer para a sobrevivência das pessoas quer para a do universo (não considerando os inúmeros microssistemas que desprezamos pela sua ínfima escala: as formigas, as eschericias coli, os vibriões coléricos, etc.). Quando queremos formular essas questões evocamos um faquir, ou um eremita na sua gruta, com um livro apenas, garatujando umas notas sem pensar que alguém um dia as lerá, ou numa mãe tirando da boca para dar aos seus filhos e a equação de necessidades que parecia apontar soluções humanitárias abre fissuras, como um templo budista após um sismo de grau 7,6. Ao tentarmos perceber a fragilidade de uma teoria religiosa da compreensão, surdiram os seguintes aglomerados de razões: 1) intrusão no pensamento de elementos sobrenaturais de vária ordem que ora se arreigam a glória da criação, ora de telecomandar o destino de alguns humanos, ora de julgar o bem e o mal em apocalipses espetaculares; 2) espiritualização de alguns órgãos do corpo como se as suas mitocôndrias se alimentassem do infinito, ou como se o sangue se encaminhasse por uma vereda abaixo sem necessidade de ser bombeado de volta, e o cérebro, no alto, fosse um anjo ou um pirata, ou como se os músculos fossem meros órgãos genitais que a dança esconde e ostenta; 3) mistificação do tempo e mistificação do silêncio pois a manipulação científica dessas variáveis consegue determinar o grosso do acaso, incluindo as tempestades e as evoluções psicopáticas da personalidade; 4) razões desconhecidas ligadas a uma muda vibração na essência dos conceitos, talvez subterrânea, talvez no cimento das sílabas que é donde a loucura germina; 5) razões desengrenadas de todas as razões conhecidas, as razões dos loucos, dos revolucionários, dos vagabundos que encontraram no sossego das ruas vazias uma noite totalmente coletiva, como uma utopia que ninguém quisesse realizar. O que fazer com estas indomáveis razões? (esta é uma questão importante?). Poderemos ultrapassar o cérebro, não apenas adicionar-lhe novas próteses, novos periféricos, mas uma nova consciência, não apenas reflexiva e armazém de culpas e afazeres, mas verdadeiramente capaz de ser consciente do que é importante e de não colocar questões idiotas sobre coisas que todos deveríamos saber antes de atuar? Provavelmente é importante não definirmos estritas questões importantes – seria desvalorizar todas as outras, relegá-las para um estatuto de entretenimento ou, mesmo, de lixo. Seria deixar a nossa essencial ansiedade sem uma pergunta que a alimente, sem uma memória de tudo o que já dissemos absurdo ainda que seja, apenas, complexo. Por vezes, é útil subir à montanha, ou a um miradouro sobre a cidade; a vastidão sossega-nos e esquecemos as questões importantes.