Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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a mensagem, os destinatários

Recebi ontem a resposta a uma mensagem-rádio que o meu trisavô mandou para o espaço antes de se suicidar, semanas depois. Estava desesperado, a mulher fugira-lhe com um capitão da polícia política e deixara-lhe os quatro filhos crianças e um papagaio que repetia os slogans revolucionários que lhe foram ensinados com garbo, mas que depressa se desatualizaram. A realidade política mudara com a revolução industrial e o meu trisavô, um combatente nacionalista pela pureza da alma lusitana, não se adaptara à paisagem de fábricas e à proletarização do país. Vivia num terceiro esquerdo nos subúrbios imaginando-se nos píncaros da Serra da Estrela, na descendência de Viriato e Nietzsche combatendo os inimigos e os corruptores. Fizera-se radioamador por uma filantropia ambivalente – toda a humanidade, sim, mas à distância da propagação da luz. O espaço seria um bom meio de difusão da sua rancorosa libido, aberto a todos os devaneios e sem a evidência de uma resposta atempada. Centenas de biliões de estrelas com dezenas de planetas cada uma, logo uma hipótese elevada de ter o seu amor correspondido, entretanto imaginar, apenas imaginar como Soror Mariana Alcoforado, tentar atingir a serenidade dos desgraçados até, enfim, morrer. Ignoro a localização do planeta donde me chegou a mensagem, calculo aproximadamente a distância a que se encontra da Terra pelo tempo que a resposta demorou a chegar-me. Pela mesma situação, não excluo que os meus descendentes venham a receber, como eu, missivas de planetas mais distantes ainda. Se a hereditariedade nos compromete com o passado, até onde levar o compromisso a que um trisavô nos vinculou? É nosso dever honrar as propostas de procriação genética trans-cósmica de um antepassado ainda que ignorando as dificuldade de uma compatibilidade amorosa com os seres que nos respondam? Aqui, habituámo-nos à atração, a automaticamente seduzir quando sentimos eriçar-se a pele, congestionarem-se os órgãos, os sentidos avivarem-se e focarem alguém, mas agora teremos de substituir esta lógica de interesses biológicos, por outra de colonização astronómica da Via Láctea ignorando os detalhes protocivilizacionais do amor. Ao que conta a harmonia do rosto humano, a compleição muscular, a forma dos dispositivos de amamentação até a graça dos elogios que façam à nossa própria beleza, face a uma fecundação intergaláctica veiculada por processos de desmaterialização dos gâmetas e sua transmissão instantânea através da imaginação para alguém que se oferece como receptor, a muitos milhares de anos-luz da Terra? Há muitos milhões de planetas por colonizar; cada descendente assim constituído poderá inaugurar uma civilização como um adolescente parte com a mochila às costas, apenas um ou dois livros dentro e disposto a esquecer muito do que os pais lhe ensinaram. De qualquer forma nunca conheceremos o seu co-progenitor a menos que consigamos apressar milhares de vezes a velocidade da luz de forma que nosso olhar teletransmitido seja instantâneo, as nossas manifestações se sigam à imagem que vemos chegar e provoquem no outro, inimaginavelmente longe, uma simpatia imediata e inteligente. Seria isto o que o meu trisavô esperava de nós?