Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A METÁFORA NEM SEMPRE É UM EMBUSTE  

Alguns poemas começam por uma estrita demarcação do desconhecido. É uma forma de rigor muito exigente como se de trás dos reposteiros nos observassem construindo o pequeno almoço e, de seguida, naturalmente, a transitar para a fase seguinte, a comê-lo. Ainda assim, da estrita observação do que conseguimos pensar nunca chegaremos ao procedimento do pensar e, do mesmo modo, não atingimos o que, embora o conseguíssemos pensar, nunca o pensámos, o que dificulta a demarcação do desconhecido. Alguns poemas partem de pressupostos infundados e alastram como maremotos verticais arrastando os acidentes da humanidade pelos seus cumes e abismos. Cidades nucleares arrasadas por uma ferocidade desconhecida – demente, dizemos da implacável estranheza do desconhecido que está dentro do cérebro. A passagem dos anos tornou familiar o abjeto, como se um simples delírio de cor ultrapassasse as significações do que é ético. Aqui estamos na transição em que os níveis anteriores confluem: o pensamento fica hiperinclusivo, arrepanha o zunir insensato dos triunfantes e eleva-o; inéditas flechas intencionais justificam qualquer crime. A força da voz avançou sobre a própria voz deixando para trás as palavras, os diferendos, as disputas que usamos como razões morais, mas continuamos para sempre fustigados por um historial de imagens que não mais conseguiremos domesticar. Alguns poemas tentam a epopeia convertendo o colapso civilizacional em sofisticação técnica donde fazem decorrer uma justiça assimétrica. Depois, com a loucura completamente consolidada, eles próprios representam o desconhecido, o intransitável da mente, a vitória da negação e da bestialidade como se uma birra infantil tomasse as proporções de um exército em fúria e se prolongasse pela vida fora. Poemas escritos em pino e pensados como glória ao seu eterno retrocesso. É arriscado pensar no que irá seguir-se. A destruição só perante os morticínios declarados é considerada evitável como um impropério que acaba em assassinato. Assim, na metáfora converge o lixo do que pensamos, o caos do pensamento que não acompanhou o caos físico da guerra, trocado por detalhes vulgares ou invulgares. Só com disciplina se vence a idiossincrasia da imagem como se com um funil domesticássemos uma avalanche de calhaus radioativos.