Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a minha geração

Passámos a infância à espera. Eram filmes de bravura/sedução, com amores inviáveis e outros de grandes amantes e aventureiros num mundo que existia duradouro e não era preciso pensá-lo. Havia uma normalidade e um equilíbrio entre porta-aviões e submarinos com bombas atómicas maleáveis de um lado e do outro. Quem não as utilizou com à vontade sem a preocupação de impingir uma noção de história que nos envolvesse? Usavam-se os argumentos mais potentes. História, percebemos hoje, é, meramente, o que se coloca antes – e se afigura inseparável do que irá acontecer. São os factos que nos inundam sem nenhuma justificação lógica, mas com total compreensibilidade. É assustador como compreendemos o absurdo, como acreditámos numa liberdade muito ativa e que qualquer um poderia ser herói. Julgámo-nos capazes de nobreza, que todo o indefinível se reunisse numa noção de «sentido»: a vida em esforço e luta. Tudo se tornou diverso. Desfizemos essa imagem agonista para entrarmos no atual universo de representações e parecenças. Tudo ligado e tudo separado. Cada um, ator da sua própria filmografia, tem a vida escamoteada num bunker antiatómico. Cada parte do cérebro numa paixão antagónica, combate por novos significados: pai, mãe, matéria, espírito, «tu» e «eu» ou o «mundo», essas coisas não nos alicerçam porque já só há presente. Nós libertos da canga hereditária aparecemos como se desejássemos a situação que nos impingem: enfarpelados numa máquina expetante encerrámo-nos nas protuberâncias arquimédicas do sonho. O sonho é o filme onde o ator emerge rindo da nossa perplexidade: faz-se a paz e a guerra em cada parte do império, inventa-se a norma num lado e desfazem-na no outro: fazer sonhar é um poder: com muscular despudor, cria a síntese de uma cascata, a água de uma flor, o vento que ata os amantes um ao outro e os arrebata. O sonho é o abismo, é a primeira referência à primavera, é o limbo do espelho onde as imagens se dobram e adormecermos. O irreal conforta; os contadores de histórias adornam a nossa intimidade, desfazem o privado, escondem os seus detalhes escabrosos: normalizam-nos. A fala é outro poder absoluto. Por isso precisamos destes circunscritos triunfos sobre a linguagem. Hoje, podemos desprezar o que ela diz: é um mero veículo de poder; podemos apagar o mundo mencionável e, no que resta, ficar tranquilos como se o pensamento se organizasse por si com os sinais dos seus radares enquadrados numa metafísica de quirópteros e os feitos com que pautamos o passado marcassem um ritmo autossustentado como num poema quando nada o antecede.