Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a modificação transformante

Ou a transformação modificante ou a mudança reconfigurante no sentido da ação que, impercetivelmente, faz o cérebro mudar. Não o nosso que nos parece estável e aborrecido, mas os das novas gerações cujos hábitos nos parecem perigosamente diferirem dos nossos. Supomos causas poderosas que já não são as artimanhas simples de rebuçados e piparotes que nos condicionaram. Ainda assim, tudo o que desejámos nos entrou no cérebro do mesmo modo que furámos montanhas e construímos portos profundos e transformámos uma parte da paisagem da superfície do mundo. Algumas espécies desapareceram, a atmosfera aquece, algumas plantas rejubilam, outras mirram e extinguem-se também. O cérebro faz o que pode: ora se entusiasma, veste um otimismo pululante e dança ao ritmo, ora se perde, horas a fio, a contemplar uma narrativa do mundo em que não acredita muito, mas não tem outra. Assim, atribui ao seu pessimismo não encontrar qualquer sentido a ponto de nem o que lhe é evidente ser compreensível. À volta da cidade construíram-se parques que excedem a beleza da natureza; este excesso de ordem coloca-nos em pé de igualdade com o urso da Sibéria que visitámos no zoo. Percebemos que os cérebros se tornaram mais potentes e mais frágeis, mais esquizofrenizáveis e mais heroicos, mas que escasseiam as ocasiões onde ele possa exibir as imensas faculdades desenvolvidas. Hoje, o excesso de ordem coloca-nos na eminência de uma guerra nuclear porque as multidões se enganam e decidem como cisnes sonolentos, autistas no seu lago negro – cada cidadão repete constantemente em surdina: «Já passou, já passou, o pior já passou». Para ele a pós-realidade conforta-o porque é um cobarde imbecil; reúne nessa categoria as mentiras que não é capaz de desmentir: 1) mistificações sem as quais não compreende o mundo e prefere a patetice à formulação dos problemas irresolvidos, 2) mistificações sociais que justificam o poder dos poderosos e a humildade dos submetidos, 3) descaradas mentiras de quem tem o poder de se fazer ouvir, depressa seguidas por quem teme ficar de fora, 4) mentiras consensuais que substituem um facto coletivo inassumível, uma vergonha agarrada ao rosto de cada um, uma culpa residente nos pesadelos ocultados, os sobressaltos dos atos falhados intrometidos numa arrogância parva, 5) falsidades que se mantêm porque custa substituí-las. Porque, contudo: 1) a polifonia democrática não iguala o mérito dos discursos nem silencia o mais adequado, 2) os polimorfismos da genética, de entre todas as formas virtuais, produzem uma e remetem as outras para domínios recessivos, 3) a complexidade sociológica não é necessariamente céptica, 4) a não-linearidade das coisas é a sublimação do tempo, 5) até a incerteza não é senão expressão do ódio do nosso cérebro ao dogmatismo. Tudo isto que não desejámos nem concebemos bem e que entrou em todos os cérebros contemporâneos, no das novas gerações são a montagem de um circo de aplicações já indissecáveis, verdadeiramente próteses de cérebros não-autonomisáveis, de cérebros preparados para a robotização da alma, cérebros fáusticos cuja eternidade virtual é imensamente satisfatória e nenhuma realidade se lhe compara.