Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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a morte de Marat

Por vezes, ao domingo, interesso-me pelo que se passa em França. É um atavismo que herdei do meu pai que o recebeu do Eça de Queiroz e de outros mistagogos. A França, como muitos outros países, julgou-se o centro do mundo, o que lhe deu algum encanto, mas é uma convicção difícil de manter hoje que se aceita que o mundo não tem centro. Ainda assim, é interessante saber em que estado está a Revolução Francesa que desde 1789 procura encontrar soluções originais alternativas a uma governação centrada na elegância do estado. Mesmo que educada na subjugação, a populaça revolta-se quando morre de fome ao lado dos nababos que extorquem os impostos. Claro que alguém tem de pagar os luxos dos estadistas e toda a questão da revolução foi procurar compatibilizar esse elevado custo do estado com as palavras de ordem sobre os direitos dos cidadãos. Têm sido o tema de muitas revoluções e fizeram furor já em 539 ac, na Pérsia, quando Ciro o Grande reconheceu a liberdade religiosa e o direito dos escravos à felicidade. Thomas Jefferson, o embaixador americano em Paris, em plena revolução, inventou a fórmula: «liberdade, igualdade, fraternidade» ainda sem resolver a necessidade de os cidadãos comuns serem conduzidos por outros cidadãos bem iluminados. Existe uma pretensa racionalidade e uma assunção de que cada um vota segundo os seus interesses, resultando a governação e o bem comum da soma dos votos. Temos todas as razões para duvidar destes pressupostos. Duvidar da capacidade de cada cidadão produzir uma análise sistémica adequada, quer quanto a especificar os seus interesses individuais, quer da sua capacidade de se posicionar entre as várias propostas revolucionarias. Napoleão percebeu bem o povo e a sua necessidade de ópio. Nos jornais de hoje, a república parece ainda mal defendida. A figura feminina semi-nua com o barrete vermelho nunca representou liberdade, fraternidade e igualdade para as mulheres. Outra mulher grita contra a república que lhe levou os irmãos e o marido. Quer voltar atrás como se, em vez de assassinar Marat, quisesse persuadi-lo a ir ao teatro ver Brecht para que lhe explique a Mãe-Coragem e a relação desta pode com a Vida de Galileu fora da dialética maniqueísta que o próprio Marat ignorou. Há algum encanto no pretensiosismo francês.