Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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a nova época

Uma grande parte das ciências procurou estabilizar a realidade que aparenta existir mas, agora que conseguimos uma suficiente compreensão das coisas, temos cada vez maior dificuldade em nos adaptar a ela. Houve uma época propícia a grandes levantamentos de massas populares numa epopeia civilizacional fílmica como se acreditássemos que essas turbas enfurecidas se levantavam contra as condições culturais da sua época e fossem capazes de, racionalmente, erguer outros pressupostos suficientemente distintivos. A modernidade foi uma gloriosa tragédia, os rurais abandonando os campos por fábricas ruidosas que nunca podiam descansar, os operários desprovidos da sua anterior paisagem de sonhos, irmanando-se na luta por objetivos imediatos, ora o pão para boca ora o sangue de quem ocupasse o poder. Todas as revoluções são movimentos culturais interessantes. Essas da modernidade condensaram um propósito espetacular de justiça e uma descomunal confiança no destino no sentido de uma despropositada sobrevalorização do homem na realização do sua história. Tanto que se chegou a negar ao homem o seu direito à igualdade, à liberdade e à fraternidade que parecia relativamente adquirido, em nome de uma superação do homem. Algumas realizações tecnológicas alimentadas por máquinas a vapor, algumas teorias científicas de duvidosa verificação, algumas reelaborações filosóficas mais descristianizadas alimentaram os profetas do super-hominismo (diferente do superhumanismo e mais próxima da heroicidade da própria condição humana desde que aberta à vertigem de uma santidade por definir). Logo, a Europa a ferro e fogo, cada país à sua maneira, destruindo tradições com o simples argumento de que eram infundadas e maléficas por virem do passado. O fascismo donde veio? Dos pressupostos da modernidade, essa inadmissível superação da humanidade, esteticamente sublime? Quando todas as tradições vieram do passado e são maléficas porque o cristalizam, o que é a destruição disto senão uma vertigem de ordem donde o homem desaparece? Por isso têm seguidores todas as doutrinas de uma realidade sobreorganizada com uma figura de opereta à frente, um halterofilista estrebuchando com as suas picaretas ideológica numa tribuna discursante. Em baixo, as massas ululando ou os jovens: os nossos pais e avôs meticulosamente disciplinados ou em fila nas procissões ou dobrados diante dos altares e todos eram devotados cidadãos incapazes de fazer as coisas de outra maneira. E agora, como compreendemos esta nova modernidade que arrasta o homem num destino esvaziado, o homem esvaziado entrega-se ao seu gozo, compartimentado em partes de si que não se compreendem, cada uma procede como se prescindisse da sua vontade de ser, da necessidade de uma unidade da pessoa que possa ser respeitável fora de direitos civis excessivamente regulamentados. É evidente terem-se criado formas de existir completamente novas. Criadas pelo acaso de tecnologias que nos aliciam e nos maquinam como Pavlov transformou o cão numa máquina simples, essas tecnologias prendem-nos pelo prazer, pela curiosidade, pelos fulgurantes desempenhos numa sobre-realidade esquematizada. Não temos nome para esta nova época, tão juntos e tão afastados estamos.