Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A OBRA E A VIDA  

Muitos autores julgam conquistar a eternidade através de obras-primas em que empenharam uma vida, mas a vida que a obra ganha pode nada guardar da vida do seu autor. Para alguns isto não é importante, a obra é a sua vida e o resto pode alimentar os vermes, mas, para muitos outros, a obra estende a vida como um vestido justo e decotado chama a atenção para o corpo. A questão é que o corpo está macerado pelo tempo, a vida resume-se a «nascido em Lisboa a 5 de dezembro de 1950 de pai belga e mãe lisboeta, falecido em Arraiolos, onde viveu os últimos anos da sua vida, no primeiro de dezembro de 2016.». Para contrariar esta tendência natural da memória à desconsideração da personagem, há autores que escrevem autobiografias eivadas de reflexões sublimes e mistificadoras vingando-se da humanidade adversa e dando preciosas indicações aos seus futuros biógrafos e a outros especialistas na sua obra, ou publicam diários com as entradas cronogramadas; o género «memórias» pode ser mais centrado em pontos concretos em que o autor julga ter uma palavra a dizer que ainda não foi dita e que lega à humanidade, mas este testemunho quer ser reforçado com uma notícia sobre o autor que se dá a conhecer como certificação da confiança que quer suscitar no leitor; uma proposta de lealdade em que o autor promete sinceridade. O género supõe, também, uma sequenciação temporal das entradas como garantia de autenticidade. As notas, pelo contrário, são fragmentos pouco estruturados no sentido de pensamentos registados com vista a uma eventual reutilização, sem grande atenção ao formato e acabamento literário. A maior parte nunca terão uma oportunidade de serem desenvolvidas; muitas são iluminações ocasionais irrelevantes; algumas parecem conter o gérmen de uma nova abordagem interessante, mas ficaram pelo fragmento. Ninguém sabe como conquistar a eternidade.