Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A PERFEIÇÃO DOS IMPERFEITOS  

Ele disse: «Sinto-me imperfeito. Tomo remédios, tenho sintomas. Careço.» O que ele não disse: 1) sobre a perfeição: nada; 2) como se um estado anterior de não-doença fosse ou equivalesse à perfeição; 3) mas esta não se recebe, 4) nem é uma mera autoapreciação; 5) por outro lado, a imperfeição não é um atributo que se perca, 6) nem um azar que surja; 7) também não é uma circunstância adversa como estar preso, ou internado num manicómio ou cerrado no elevador com alguém muito mal cheiroso. Acresce que, 8) não pensamos a perfeição como um forma do humano em plenitude, mas como a forma para que tende o humano quando pensa a plenitude, acredite ou não que ela exista; então, 9) poucos sintomas a bloqueiam, poucas vicissitudes a transtornam (ser atropelado, ficar paraplégico, demenciado, amputado, fóbico). Portanto, para muitas atividades sublimes com a poesia ou para quem tenha êxtases (místicos ou estéticos), ter certos sintomas não é um constrangimento (pelo contrário, pode ser estimulante), logo ser imperfeito (desta forma assim indefinida) não impede a vivência da plenitude que é uma boa aproximação à perfeição, e, assim, ser imperfeito não impede a perfeição.