Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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A PERSONALIDADE DE DARWIN NÃO INTERESSA AO DARWINISMO

Darwin era um tipo especial, não só pelo seu prodigioso mau-feitio, inesperado num evolucionista, mas pela forma como restringia a sua expressão emocional à mímica que identificou nos animais. Nunca foi visto a soltar uma boa gargalhada nem a chorar a prantos, apenas expressava a surpresa hínica de um observador da natureza, o contentamento brando de uma animalidade saciada, a raiva contida pela boa-educação e, sobretudo, o medo – um medo transversal a todos os indivíduos placentados, a todos os que experimentaram um rápido desenvolvimento em condições ótimas e foram obrigados a nascer para um mundo onde as coisas importantes são inconsensuais. Os cientistas moldam a vida à verdade das suas teorias; Darwin, desde que publicou a expressão emocional nos animais e no homem, sacrificou as suas próprias emoções. O seu amigo Freud atribuía a estes recalcamentos das emoções as desmesuradas dores de barriga e demais sintomas de fragilidade intestinal que atormentaram Darwin toda a vida. Fizeram-no triste e amargurado, só encontrando algum conforto na companhia de Emma, a sua esposa. Com estes sintomas dramáticos provocava a sua atenção tal como antes provocara a de seu pai, um médico assertivo e trabalhador, com pouco tempo para dedicar às pieguices do filho. Darwin era um obsessivo colecionista de conchas bivalves; foi quando adquiriu a famosa trilobite gigante do Cabo da Roca que fez a ligação dos moluscos ao grupo dos cordados, em particular aos cordatos portugueses que os espanhóis tomam por tristonhos. Darwin compreendeu-os bem: durante os anos da sua viagem pela América do Sul leu a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. O autor fascinou-o: a sua capacidade de respeitar a não-trivialidade das coisas triviais, seja nas treze vezes em que foi vendido como escravo, nas dezoito em que naufragou ou nas centenas em que saqueou, ou de alguma forma, violou o que deveria respeitar. Também, como identificava num organismo os seus traços estruturantes – é a lógica comum de um salteador e de um colecionista: perceber como cada coisa poderá ser atacada e colocada no devido lugar num retrato de grupo que representa toda a biosfera. É o ilimitado domínio de interesses de um aventureiro e de um colecionista – pois que tudo se relaciona com tudo e, se uma coisa nos interessa por algum aspeto, a outra coisa também me deverá interessar: tudo pode ser roubado ou classificado que é uma forma de apropriação. Por isso, como as crianças no auge do ateísmo, Darwin perguntava se as coisas não poderiam ser excluídas da sua espiral semântica e recolocadas numa outra linha, prévia aos sumérios e aos egípcios, prévia à linguagem que cava a diversidade das coisas – pois a vida irmana-se; nos seus diferentes formatos, a vida faz amar, competir, vencer, morrer – a vida evolui.