Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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A POLUIÇÃO LITERÁRIA  

Hoje, a literatura tem o seu auditório muito restringido, contudo, a sua voz ainda se dirige à humanidade que a deveria escutar em bicos dos pés. Mas não é o que se passa. A humanidade pouco escuta. As mensagens que lhe chegam são cada vez mais curtas. São grunhidos, ou zurros, ou outros guinchos que perderam o caráter articulado e logicamente encadeado da linguagem, até da linguagem dos golfinhos. Tudo porque o livro deixou de ser o veículo das melhores ideias e também porque se escreveram demasiados livros inúteis. Escrever bons livros inúteis tornou-se um grande negócio, mas a humanidade fartou-se das suas frases estudadas, demasiado impróprias para uma declamação ao vivo. Hoje, os grandes escritores não escrevem. Os que têm, autenticamente, uma ideia para a humanidade redigem um simples manifesto ou dão-lhe a forma de um guião e passam-no aos industriais da edição para que lhe arranjem um destino. Poderá adotar o estilo de um videojogo muito viciante, de uma série ou novela, ou apresentado em pequenos capítulos em jornais de distribuição gratuita. Se o autor insistir no formato do livro, deverá escrever aos seus pares a explicar muito bem as razões porque é importante o seu livro. Poucos concordarão – e são eles os únicos eventuais leitores. Nem os amigos que troçam ternamente, nem os companheiros em rituais a dois em que se enaltecem mutuamente, nem o caixeiro da livrara. Ninguém. Mais uma vez, não conseguiu demonstrar quanto a humanidade melhoraria lendo o seu livro. Aos futebolistas, à atriz do calendário, ao cançonetista ou ao pregador evangelizador basta um gesto e logo os aplausos reflexos da turba simplória – os escritores de livros falharam. Só alguns amigos o leem, mas esses amigos também escreveram livros que ninguém leu. Assim se demarca o problema sociológico da ocupação dos escritores que são ótimas cabeças, desperdiçadas pela sociedade. Soluções: 1) Debater o problema num congresso mundial de escritores ou numa sessão especial da ONU. 2) As comissões da Europa deveriam regulamentar qualquer atividade escrivã, designadamente, criando impostos sobre as esferográficas e impostos sobre a utilização escrita de palavras. 3) Aumentar dezenas de vezes os direitos de autor para a primeira obra, e extingui-los para as subsequentes, de modo a tornar unívoca a relação de cada autor com a sua obra (nada de obra de juventude e obra tardia, nada de heterónimos); cada autor tem que pensar bem o que tem a dizer, pois, após a publicação do seu livro, está encerrada a sua obra. 4) Sem censurar a má literatura, investigar melhor os critérios de boa literatura, mas dissuadir da sua aplicação industrial (que os implicaria na má literatura). 5) Investigar a má literatura, taxá-la, e estabelecer curas de requalificação compulsiva para os seus praticantes, demoradas e com extensa bibliografia obrigatória. 6) Promover olimpíadas de literatura para leitores sobredotados, com várias modalidades: a) mais livros bons lidos, b) mais livros maus lidos, c) leitores na voz passiva, d) capacidade de citar autores, e) grandes recitadores de poesia. f) capacidade de fazer crítica. 7) Promover a escrita aforística, lapidar ou poética. 8) Censurar os escritores de obras volumosas como Proust e Tolstoi por não se terem dado ao trabalho de serem sucintos. 9) Tornar a escrita hieroglífica a única acessível às máquinas de impressão. 10) Criar em todos os países um departamento (ou um organismo especial da ONU) onde os novos livros estagiaram como o vinho do Porto e seriam sujeitos a várias revisões e cortes, e onde os novos escritores seriam industriados com vista a uma responsabilidade planetária e a uma cultura planetária.