Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a pós-autenticidade

Cada existência é autêntica no sentido de não poder ser outras senão ela mesma. Cada uma contém várias capas e disfarça-se consoante a paisagem, enovela-se noutro papel se tal lhe é solicitado, muda de casa, ou de cidade, ou de país. Paradoxalmente, estas tentativas de sair da sua existência, transformando-a, alterando-lhe os alicerces e os pressupostos acabam por diminuir um aborrecimento que parecia inerente à estabilidade de uma existência. Não podemos dizer que a mobilidade de uma certa época propicia a inautenticidade. De certo modo, o autêntico cria mais autêntico com o seu próprio círculo de solidão e de emaranhamento numa rede de influências inconscientes (no sentido de recebidas na inconsciência; contudo, o agente influenciador tem consciência e intencionalidade – joga a sua glória). Para um humano, existir é tentar a melhor versão da bondade como se, no imenso guarda-roupa de um teatro, experimentasse as roupagens para uma imagem a que, de seguida, adequará o seu comportamento. É a sua autenticidade: a cadeia de escolhas que moldam o monstro de plasticina cuja alma precisa de se ignorar. Dizê-la inautêntica é julgar mal esta liberdade irrefletida donde cada um surge com uma parcimoniosa alegria, mas ainda sem uma ideia clara das suas contingências. Não está investigado o efeito dos pais neste otimismo face às contingências, mas nem tudo depende de uma atitude otimista: o primeiro corte de cabelo, o primeiro pijama, a frequência da lavagem dos dentes e, quando, entre um ano e os dois e meio, nos atiram ao ar, a altitude que então atingimos, em tudo se joga a autenticidade do sujeito donde a importância da dialética entre mobilidade e conforto que arreiga cada individuo a um destino que não poderia ser outro. A historicidade nunca foi tão relevante em nenhuma outra época; nunca se criaram tantos novos cenários e novas circunstâncias, nunca os valores e os critérios de realidade foram tão intrusivos e tão discutíveis tornando crucial discutir o que é atuante e o que são epifenómenos contudo, cada pessoa joga-os em vários papéis com uma consciência una e autêntica, numa época em que a narrativa histórica, embora mais suscetível à manipulação que outrora, exige mais rigor para não ser óbvia mistificação, mas é verdade que os autênticos historiadores estão confusos com a autenticidade da história.