Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a razão literária

A literatura não se interessa pelas coisas. Não circunscreve os fenómenos, não isola factos, não os vê sucederem-se, não encadeia efeitos e, assim, é incapaz de descortinar por trás da variância a beleza epigenética de uma equação. É fácil para o escritor tirar conclusões de uma narrativa, não tem como o carteiro, de entregar cada mensagem no endereço correto, passeia pela cidade ou estaciona numa esquina como uma prostituta. Não o condenamos pela leviandade do seu pensamento nem pelo abuso do que afirma, antes lhe pedimos que não nos queira convencer nem amar, mas que se ofereça pois estamos dispostos a pagar o que nos pedir – apenas para que se deixe admirar. A literatura é um corpo que todos usam, uma mãe de todas as mães, incluindo as mães maltratadas toda a vida, as que geraram fetos implantados, as que viram os filhos definhar e, também, as mães que abandonaram, que partiram com os amantes para recomeçar a vida com limpidez. Estas acreditaram na felicidade. Mesmo que o escritor não se interesse pela felicidade é importante nunca lhe fechar as portas. É um tema sobre o qual as pessoas gostam de divagar e algumas julgam ter ideias próprias. A felicidade ignoramos do que vem: 1 ) se de uma forma de olhar as pedras, apreciar-lhes as minúcias e os desgastes, ler delas o destino pobre e, ainda sem estabelecer comparações, beijá-las e deixá-las no seu lugar, 2) se de um aparelho desejante pouco exigente e auto-saciador, 3) se de uma arreigada convicção na própria simplicidade, 4) se das precauções colocadas na fala quando alude aos entes que voam e são livres e plenos, 5) se da capacidade de amar as coisas e as pessoas sem contar o seu mérito e utilidade, 6) se de uma euforia que se alimenta da sua desrazão, 7) se de um consciencioso encantamento, voraz como o fundo de um lago à noite, com a vida que cada dia ressurge, 8) se da pura convicção na força, não como um potencial de realização, mas como modo de uma saciedade realizada. Sim, a literatura, mesmo a de ficção, interessa-se pela sucessão de planos, pela sua desordenação temporal ao sabor de uma ordem que não é humana nem existe nas coisas – é literária.