Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a sabedoria dos sábios não é estimulante, mas é sólida

De um lado, uma voz fala sem parar das coisas mais importantes para a humanidade futura. O ouvido direito mal a ouve. O esquerdo ainda menos, ambos apenas filtram a redundância. Eu não sei o que pensar entre pensar tudo tão fluentemente como essa voz e silenciar-me e ver o que não desaparece. Sei que existem doenças no conteúdo da voz e que não tenho nenhuma doença ativa; que me silencio porque não tenho medo da humanidade que fala demasiado nem tenho medo das coisas que ela vislumbra e de que não fala. Penso diferentemente da voz à minha esquerda e, no ouvido direito, o meu silêncio é diferente porque é uma recusa do peso e do lixo. Quase tudo é peso e lixo. Outras vozes falam do que falta no que já existe, outras ainda do que está certo e deveria ser norma, ou do que é chocante e deveria ser interdito. Mas o problema são as que reivindicam ser os agentes da sua própria transformação; pedem pastilhas que as façam ser de uma forma ou de outra consoante lhes apeteça, rir, ter visões e acreditar numa utopia que desapareça depressa, ou quedarem-se numa contemplação neutra e absoluta, sem chegarem ao seu próprio silêncio. Ninguém sabe o que lhes responder. A questão parece ser o que fazer com tudo o que agora se tornou possível; devemos experimentar e confiar que sejam limitados os nossos erros? Mas quando se tornam hegemónicos, todos os seguirão. Deixarão de ser erros, mas continuaremos a ignorar o que se seguirá. A voz à minha direita está embasbacada, incapaz de medir as trajetórias e os impactos das ideias como se acreditasse que, por um desígnio inlocalizado, coincidissem numa figura da bondade que ainda conseguíssemos reconhecer. O meu silêncio significa apenas que não tenho opinião, que não uso pastilhas porque prefiro assegurar a estabilidade do sujeito na escrita. Não sinto necessidade de me alterar para alterar a escrita; ela escreve-se com os seus próprios vaticínios tal como os meus sapatos tentam uma harmonia entre os passos e o solo que pisam. Não tenho outras próteses apensas ao corpo além de um pequeno ciclomotor. Para me elevar apanho um ascensor, não tomo alucinogénios para escrever um poema nem pastilhas para dormir, pois é na insónia que escrevo o poema. Mas isto não significa que recuse as coisas importantes que a voz menciona, simplesmente penso longamente em cada uma e o que penso, por ser inconclusivo, confere-lhes uma aura de lentidão que a faz familiar como «a volta ao mundo em 80 dias». A «natureza humana» é uma falácia para oportunistas éticos como Lewis Carrol, mas gostaria que a voz à minha direita lhe reescrevesse os livros pois acho-a semelhante ao pássaro dodó que achava benigna a humanidade que o aniquilou. Não condenamos a humanidade pela extinção das espécies à medida que o universo se moderniza; deixamos que as coisas sigam uma inclinação que dizemos «natural» e que inclui tudo o que nos poderá transformar noutra coisa que desconhecemos. Mas o tempo é a qualidade do triunfo, não um juízo de valor. Obsolescência é a qualidade do que esqueço, mas na memória nada parece desaparecer, antes continua naquilo em que me torno.