Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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«A SITUAÇÃO DO MUNDO»  

A ação tende à burocracia, os heróis tendem a engordar e a deixar cavalos à solta – é o que diariamente concluímos dos noticiários. Até as filosofias, tal como um país ou a própria Europa, dependem das circunstâncias e a poesia é um holograma necessário a uma visão de conjunto. Inversamente, o suicídio como programa nacional refletiu um estilo de vida dominado pelo elogio da inação, pela paralisia burocrática, pela pseudo-justiça de um regime que, em diversas ocasiões, soçobrou. Especialistas e filósofos fizeram-se ouvir: Édipo aos tropeções até ao leito do incesto com os seus carros de assalto dirigidos aos líderes espirituais que impõem desvantajosas posições de coito. As mulheres para muitos são um assunto íntimo dos onanistas que assim se adaptam à curva normal na catadupa de factos dos noticiários. Para esses, elas deveriam continuar incluídas na situação do mundo apenas enquanto acontecimento plástico. Para os românticos também. Escutamos todas as opiniões. Entretêm-nos. A ideia é que a felicidade são os factos omitidos que todos tomamos por garantidos numa espécie de paraíso fiscal, infantil e pouco duradouro. No entanto, o centro de um país é um palácio, mesmo se as fontes de virtude foram dispersas. Estadistas hipervisíveis dizem as antíteses do que sabemos pensar: falam-nos das gaivotas nos guindastes de fábricas de contraceptivos que do alto nos cagam, dizem-nos de não fornicar no vácuo sideral, que não o devemos conspurcar. Eles protegem-nos, eles amam-nos, eles conhecem-nos. Não nos revoltamos: são variantes da ordem e variantes do amor. Do outro lado do saber, cosmólogos desvirtuam a lua. Ultrapassam o que pode ser afirmado; julgam dominar as astrologias que nos passam rente (assim pretendem fundamentar uma teologia multiusos). Obcecados com a fama, nós perdemos o medo do absurdo que encontramos nas equações do cosmos. O futuro não é o espaço sideral, é o espaço publicitário (cada espaço, um poder). Cada espaço, uma aura turística onde o ópio do povo se revivifica numa nova metáfora política. Ouvem-se orações recorrentes, o ópio do povo argumentado com incêndios em catedrais. As homilias fomentam mortificações sociofamiliares: regra e transgressão alimentam-se do corpo cívico de palavras que dançam, que ecoam. A situação do mundo é inconclusiva: uma vertigem que exige uma plenitude química, seja pelo fogo das bombas incendiárias, seja pelo efémero total da cocaína. As culturas exóticas são usadas para relativizar ou reabilitar paradigmas sociais desconjuntados que não pertenciam à situação do mundo. Resta ainda um corpo que a poesia retoma nos quotidianos lugares da alma, mas esse os dráculas da informação omitem.