Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A SOMBRA DE MIDAS  

Depois de publicado o livro, percebemos o que falhou naquilo que escrevemos. Por vezes, percebemos, também, porque falhou. Logo se pensa numa segunda edição, uma esperança fosca – no íntimo sabemos quanto não a desejamos: depois da segunda, desejaríamos a terceira, etc. Entretanto, percebemos a transitoriedade do discurso, a sua circunstância e limites. O que detetamos de incorrigível num livro publicado pertence à melhor versão da verdade (enquanto intenção) que fomos capazes de esboçar. Não se defende a indulgência, mas que pertence à sabedoria recusar a incumbência da perfeição. Não conseguimos sequer formular uma pragmática da perfeição nem estabelecer os seus critérios com isenção. Receio que funcionasse como o poder do rei Midas, o seu ouro encerrar-nos-ia numa fórmula sem beleza nem aventura. Em muitos casos o valor poético de um texto não está no seu valor de verdade nem nas suas evidências nem naquilo que ele nos oferece de acabado, mas, sobretudo, no caminho percorrido, nos tropeções, nas hesitações, nos becos sem saída, nos retrocessos. Não é ainda sabedoria esta espécie de resignação ao que fomos capazes, esta aceitação sem vergonha de um objetivo que não se realiza totalmente, essa autoria passo a passo, essa autoconstrução que não se separa completamente do seu parcial fracasso, na qual nos empenhámos com a maior exigência. Mas a capacidade de, ao retomar o texto, encontrarmos o que falhou deverá alegrar-nos, devmos permitir-nos uma subtil ternura (necessariamente crítica) pois é em função do erro e do falhado que a escrita continua incomplacente. Ser incomplacente pertence à sabedoria.