Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a verdade como procedimento narrativo

Uma avalanche por uma ribanceira íngreme destruiu o bairro. Depois, vieram as palavras reguladoras com os seus tratores, os guindastes, os operários com novos artefactos arquitectónicos, de certa forma, «sociais». Todos pretendem vencer a mesma ordem inoculada na vida que se ofereceu, surda e passiva, à destruição. O galope fluente dos nomes tanto se aplica a essa totalidade narrativa que assalta a cidade como à própria destruição da cidade e de tudo o que é tangencialmente inacessível. Perante uma opulência social que falha, o excesso de vida confunde-se na vida morta e inferior, prenhe de ritmos inaugurais e subterrâneos. Pântano de significações, o que queremos dizer não se sequencia em sombras comunicáveis: «Onde começo a minha história, se só existe quando me interrogam?» O poema, ao desbravar, começa por interrogar, depois centra na sua época a questão do mérito e da derrocada do mérito: a eternidade, o intemporal, a política concretizam-se numa moda. Pode ser a mafia, a homeopatia, mesmo a engenharia fiscal, tudo supõe um articulado de valores consistente no contexto de um brando pugilato de antropólogo contra a torre Eiffel. Porque a política supõe um ideal amoroso, os cidadãos agrupando-se em violentos futebóis, disporem-se pelos vetores do ciúme; a política nunca perdoa a confusão dos aquiescentes que se enganam nem dos que perdem imaginando o abandono e vinganças. Há sempre efeitos sistémicos na nossa vida e, se estivermos alerta, os olhos da lua desligam-se da opressão da memória, as configurações restringem-se, nem tudo é possível nem sequer com alguém que encontrámos. Já não é preciso levar as coisas às últimas consequências, basta uma versão plausível que esfuma o rosto do anjo, o autor aparece e o leitor toma-o a sério porque não tem alternativa. Que tem de melhor para acreditar?, também não é caso para se tornar mórmon ou testemunha de Jeová. Assim recria uma paz funambulesca ou uma paz telescópica ou apenas dessemantizada que ocupa a verdade com uma esmola recusada. Paciência. Barriga cheia.