Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ABY WARBURG  

Em geral não damos muita importância às virtudes dos outros, tomamo-las como atributos vulgares como a teta da vaca em que todas as pessoas mamam. Se alguém é generoso connosco, logo pensamos que apenas recompensa os nossos méritos, que os reconheceu e que o prémio que nos confere é inferior ao que mereceríamos. Da justiça dizemos o mesmo, que é um direito dos desfavorecidos e uma obrigação dos mais fortes; da temperança e da prudência, que são falta de coragem, até a sabedoria podemos tomá-la como presunçosa ou exibicionista. E temos razão: para cada pretensa virtude podemos imaginar um encadeamento psicodinâmico de situações inescapáveis que tornam as pessoas inexoravelmente bondosas, prudentes, justas, sábias, etc., de modo que, assim, desfazemos o mérito dos virtuosos e damos crédito às vítimas, recipientes das suas virtudes. De certa forma, a virtude contesta o estado que é o grande virtuoso por excelência, o grande distribuidor de justiça, de segurança, das certezas que tornam supérflua a sabedoria a ponto de podermos dizer que um estado eficaz tornaria ridícula a bondade, desnecessária a prudência, descabida a generosidade. Diríamos a sabedoria, um assunto que nos distrai, mas pertence a diletantes sem um interesse prático em coisa nenhuma nem virtudes a defender, sofistas que falam das virtudes como de um desporto que amam, mas não praticam. Na verdade, para a maior parte de nós é preciso algum desprendimento para ser virtuoso, é preciso não ter muito a perder com cada virtude que apregoamos. Buda era príncipe e largou tudo. Aby Warburg era herdeiro de banqueiros e largou tudo. Mesmo doente procurava uma forma de sabedoria residente nas formas estéticas como nas outras, indiferentemente. «Mas é isso a doença», diziam alguns. Não, é uma virtude.